domingo, 7 de agosto de 2016

Impeachment é golpe?


Não, impeachment não é golpe, está previsto na Constituição. Não é preciso ser ministro do supremo para saber disso. Acontece que não se recebe a resposta certa fazendo a pergunta errada. A pergunta que se deve fazer, em nome de um mínimo de honestidade intelectual, é se impeachment sem crime de responsabilidade é golpe. Neste ponto, a resposta é sim. Tanto a direita quanto a esquerda devem concordar com estes dois pressupostos. Caso contrário, não pode haver uma discussão minimamente racional. Sendo assim, toda controvérsia deve se concentrar sobre se, no caso atual do Brasil, há um crime de responsabilidade ou não.
O principal argumento à direita é que houve maquiagem das contas públicas, violação da lei orçamentária. Por aí já se percebe que não se está tratando de algo como enriquecimento ilícito, e este é justamente o principal argumento à esquerda. Pois bem, é preciso deixar claro que ninguém pode ser acusado sem saber do que está sendo acusado, e por isso o processo de impeachment de Dilma Roussef se concentrou em torno das chamadas pedaladas fiscais, demora no repasse de valores a bancos públicos, e nos decretos de crédito suplementar. Este era o pressuposto jurídico sem o qual não se poderia passar para o julgamento político. Particularmente, estou convencido de que não há evidência alguma de crime de responsabilidade. Como diria Belchior: "tenho ouvido muitos discos (leia-se vídeos), conversado com pessoas", e não é difícil para mim chegar à conclusão de ausência de crime. Isto porque há vários níveis pelos quais a discussão passa e, mesmo que se conceda razão aos que são a favor do impeachment em um primeiro ou segundo nível, há um nível em que isto é, na minha opinião, impossível.
Poderíamos arbitrariamente estipular vários níveis para esta discussão, de modo a dar conta de desfazer os mais diversos mitos criados por uma dupla infalível: parcialidade de quem informa, fanatismo de quem é informado. No entanto, por didatismo, podemos fazer um recorte em três níveis:
1º. Não há enriquecimento ilícito da presidente Dilma. Isto é curioso porque muito se fala da Lava-a-jato. A julgar por dois detalhes importantíssimos que lamentavelmente demonstram parcialidade do judiciário (a condução coercitiva de Lula e o vazamento de áudios ilegais para insuflar ódio irracional na população), era de se esperar que se chegasse a Dilma, via PT, a fim de fazer o recorte jurídico que serviria de pressuposto ao julgamento político do impeachment. Como isto não foi possível, fez-se um recorte em torno das pedaladas e dos decretos.
2º. Não houve pedaladas nem decretos sem autorização do congresso. Não houve pedaladas porque não houve operação de crédito com os bancos públicos, e os créditos suplementares, que estavam condicionados ao cumprimento de uma meta orçamentária por parte do governo, foram decretados de acordo com esta meta. Não houve descumprimento da meta e, por isso, os decretos não foram ilegais. O curioso deste ponto é que o governo esteve à beira de cometer este erro de que está sendo acusado agora. Ao perceber que não cumpriria a tal meta, enviou proposta de mudança da mesma ao congresso que... aprovou a meta. O mesmo congresso que depois, com um exemplo emblemático do que significa a palavra 'cinismo', fez um julgamento político (leia-se sem fundamento jurídico) de que não houve cumprimento da meta.
3º. Neste nível, entramos em um raciocínio contrafactual. É aquele ponto em que a discussão já está praticamente terminada. Você defende A e seu interlocutor defende B e, embora haja mais evidências em favor de A, você concede a hipótese: e se B for o caso...? Pois bem, muito embora a cultura brasileira faça um movimento pendular entre o messianismo e a iconoclastia, privilegiando muitas vezes um único indivíduo em detrimento do grupo e do contexto em que está inserido, é certo que a presidente da República não governa sozinha: para isso há órgãos técnicos, os quais levam a cabo muitas decisões, corretas ou não. O fato é que decisões que partem destes órgãos técnicos eximem a presidente de dolo. O dolo é diferente da culpa, esta advém de negligência, imperícia ou imprudência. Muito se tem acusado a presidente afastada destas três coisas, talvez não sem razão, porém isto não caracteriza o dolo, que é a intenção de cometer um malfeito.
É certo que estes pontos não esgotam a discussão. Em todos os níveis, há espaço para o contraditório. Há quem traga à baila a época em que Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, há quem diga que a meta orçamentária não é anual e sim bimestral ou que o rol de crimes de responsabilidade não é exaustivo e sim exemplificativo, e há quem identifique o dolo na intenção de vencer as eleições. No entanto, raramente as discussões chegam até este ponto; há algumas que não chegam nem ao primeiro nível, mas apoiam-se em coisas como inflação e desemprego (!). Podemos chamar estes casos de nível zero da discussão, quando nosso interlocutor dá de ombros e afirma: pois que seja golpe! Neste ponto, voltamos a 1964, e percebemos que a cultura democrática brasileira ainda tem muito o que aprender.
Desnecessário dizer que a mídia apoiou as manifestações pró-impeachment, e não deixou a menor dúvida de sua parcialidade quando abafou a delação de Sérgio Machado, em que Romero Jucá fala explicitamente da intenção de colocar "o Michel" no poder. Lembro que aguardei ansioso para assistir ao Jornal da Globo e ver o que William Waack afirmaria em seu editorial e... nenhuma menção ao Michel. (Aliás, parece que a principal notícia aquele dia na GloboNews era a Venezuela). Para concluir, e lembrando a frase de Brecht de que o pior analfabeto é o analfabeto político, não duvido de que, numa enquete destinada a perguntar se o caso de Dilma se assemelha mais ao de Collor ou ao de João Goulart, boa parte das respostas seriam: "quem é João Goulart?".

sábado, 30 de abril de 2016

Olívia (por Luis Fernando Verissimo)

Querida Olivia Schmid, muito obrigado pela carta que você me mandou no hospital Pró-Cardíaco, quando soube que eu estava internado lá, na semana passada. Sua carta me emocionou, bem como as muitas mensagens que recebi de amigos e de desconhecidos como você, desejando meu restabelecimento.
O restabelecimento era garantido, pois eu estava nas mãos dos médicos Claudio Domenico, Marcos Fernandes, Aline Vargas, Felipe Campos e toda a retaguarda de craques do hospital, além do dr. Alberto Rosa e do dr. Eduardo Saad, que instalou no meu peito o marca-passo que, se entendi bem, vai me permitir competir nas próximas Olimpíadas.
Mas, infelizmente, não pude responder sua cartinha, porque você não colocou seu endereço. Só sei que você se chama Olivia (lindo nome), tem 10 anos, mora na Tijuca e cursa o quinto ano da Escola Municipal Friedenreich. E que gosta muito de ler.
Você me fez uma encomenda: pediu que eu escrevesse uma história sobre pessoas que não gostam de acordar cedo de manhã, como você. Vou escrever a história, Olivia, inclusive porque pertenço à mesma irmandade.
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Concordo que não existe maldade maior do que tirar a gente do quentinho da cama com o pretexto absurdo de que é preciso ir à escola, trabalhar etc., todas essas coisas que não se comparam com o prazer de ficar na cama só mais um pouquinho.
Acho até que poderíamos formar uma associação de pessoas que pensam como nós, uma Associação dos que Odeiam Sair da Cama de Manhã (AOSCM). Poderíamos até fazer reuniões do nosso grupo — desde que não fossem muito cedo de manhã, claro.
Você me fez um pedido e eu vou fazer um a você, Olivia. Por favor, continue sendo o que você é. Não, não quero dizer leitora dos meus livros, se bem que isto também. Continue sendo uma pessoa que consegue emocionar outra pessoa com um simples ato de bondade, sem qualquer outro pretexto a não ser sua vontade de ser solidária.
Você deve ter notado que o pessoal anda muito mal-humorado, Olivia. Se desentendem e brigam porque um não tolera a opinião do outro. Conversa vira bate-boca, debate vira, às vezes, até troca de tapas.
Uma das crises em que o Brasil está metido é uma crise de civilidade. Não deixe que nada disso mude a sua maneira de ser, Olivia. O seu simples ato de bondade vale mais do que qualquer um desses discursos rancorosos. Animou meu coração mais do que um marca-passo.
O Brasil precisa muito de você, Olivia.

Luis Fernando Verissimo, na Gazeta do Povo do fim de semana de 9 e 10 de abril de 2016.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Feliz ano velho (o verdadeiro)

...de repente, entrou um bando de gente cantando e tocando violão. Foi aí que me dei conta:

Dingo bel, dingo bel
Já chegou Natal
Lá lá lá...

Fiquei contente com as pessoas. Elas queriam, e conseguiram, transmitir uma felicidade, um espírito de Natal, um vamos-nos-dar-as-mãos que me deixou emocionado. Nunca fui muito de Natal, exceto quando criança, óbvio. Mas aquele dia a música me deixara feliz, feliz por saber que jamais teria outro Natal tão triste como aquele. Por saber, também, que, apesar de tudo, ainda existia Natal. E descobri que Natal é isso mesmo. Por que não um momento de ternura e amizade com as outras pessoas, mesmo levando uma vida fodida o ano inteiro?

(...)

...essa noite, pouco antes da meia-noite, acordei com fogos e gritaria na rua. Era Ano-Novo. E mudança de década: 1980. Não haveria champanhe, serpentinas ou abraços. Eu estava só.
- Feliz Ano-Novo, Marcelo.
- Pra você também, Marcelo.
Admirava a alegria das pessoas na rua, uma alegria da qual não fazia parte. Estava triste e só.

Adeus Ano Velho, feliz Ano-Novo

Não tinha o mínimo sentido. As lágrimas rolaram, chorei sozinho, ninguém poderia imaginar o que eu estava passando. Nada fazia sentido. Todos sofriam comigo, me davam força, me ajudavam, mas era eu que estava ali deitado, e era eu que estava desejando minha própria morte. Mas nem disto eu era capaz, não havia meio de largar aquela situação. Tinha que sofrer, tinha que estar só, tão só, que até meu corpo me abandonara. Comigo só estavam um par de olhos, nariz, ouvido e boca.

Feliz Ano Velho, adeus Ano-Novo

Foi o que eu prometi a mim mesmo. "Se eu não voltar a andar, darei um jeito qualquer pra me matar." Era bom pensar assim. Eu não tinha medo de morrer. Era muito mais fácil a morte que a agonia daquela situação.
- Parabéns, Marcelo. Foram vinte anos bem vividos. Deixará muitas saudades, alguns bons amigos, umas fãs. Fique tranquilo...

(Marcelo Rubens Paiva, "Feliz Ano Velho")

sábado, 29 de agosto de 2015

Amnésia (durante a queda)*


Durante a queda, esqueci o porquê de ter pulado do décimo quinto andar da previdência social. Eu estava desempregado? Estava. Há milhões de desempregados pelo país a fora, mas só eu estava caindo. Falhara em conquistar o amor de Hilda? Falhara. Há milhões de malsucedidos no amor, mas só eu caía. Por mais que me esforçasse, não conseguia lembrar por que eu pulara. Apelei para os céus:
- Por queeeeeeeeê?
A queda transformou meu apelo em um horrendo grito. A pergunta e a angústia, portanto, continuavam, como eu, no ar, por muito pouco. Porque o tempo nos impõe mais limites que o desespero, a falta de dinheiro ou o desejo. E na queda, como na vida, o tempo se esgota antes da resposta. (Walther Moreira Santos. Em: Geração Zero Zero. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2011.)

*Conto transcrito do programa Leitura Viva, com Flávio Stein, da rádio lumen fm.

Citação

"...Às vezes eu gritava perguntas às rochas e às árvores e através dos desfiladeiros, ou cantava como um tirolês. - 'O que significa o vazio?' A resposta era o silêncio perfeito, e então eu entendia.
Antes de deitar, lia à luz do candeeiro de querosene todo e qualquer livro que encontrasse no barraco. - É surpreendente como as pessoas isoladas ficam famintas por livros. - Depois de ler detidamente todas as palavras de um volume de medicina e as versões resumidas de peças de Shakespeare feitas por Charles e Mary Lamb, subi para o pequeno sótão e juntei velhos livros de bolso de caubóis e revistas que os ratos tinham destroçado - também joguei pôquer com três jogadores imaginários.
Pouco antes de deitar, aquecia uma xícara de leite com uma colher de mel quase a ferver, e esse era o meu trago para a hora de deitar..." (Jack Kerouac, Sozinho no topo da montanha)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Não seja professor (por Vladimir Safatle)

Quem escreve este artigo é alguém que é professor universitário há quase 20 anos e que gostaria de estar neste momento escrevendo o contrário do que se vê obrigado agora a dizer. Pois, diante das circunstâncias, gostaria de aproveitar o espaço para escrever diretamente a meus alunos e pedir a eles que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta "pátria educadora" não merece ter professores.
Um professor, principalmente aquele que se dedicou ao ensino fundamental e médio, será cotidianamente desprezado. Seu salário será, em média, 51% do salário médio daqueles que terão a mesma formação. Em um estudo publicado há meses pela OCDE, o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar em uma lista de 35 países, atrás da Turquia, do Chile e do México, entre tantos outros.
Mesmo assim, você ouvirá que ser professor é uma vocação, que seu salário não é assim tão ruim e outras amenidades do gênero. Suas salas de aula terão, em média, 32 alunos, enquanto no Chile são 27 e Portugal, 8. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras.
Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha. Em outros Estados, a pura e simples indiferença. Imagens correrão o mundo, a Anistia Internacional irá emitir notas condenando, mas as principais revistas semanárias do país não darão nada a respeito nem do fato nem de sua situação. Para elas e para a "opinião pública" que elas parecem representar, você não existe.
Mais importante para elas não é sua situação, base para os resultados medíocres da educação nacional, mas alguma diatribe canina contra o governo ou os emocionantes embates entre os presidentes da Câmara e do Senado a fim de saber quem espolia mais um Executivo nas cordas.
No entanto, depois de voltar para casa sangrando por ter levado uma bala de borracha da nossa simpática PM, você poderá ter o prazer de ligar a televisão e ouvir alguma celebridade deplorando o fato de o país "ter pouca educação" ou algum candidato a governador dizer que educação será sempre a prioridade das prioridades.
Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um país que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa. (Folha de S. Paulo, 05-05-2015, disponível aqui).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ainda a ditadura

Caracteriza-se [a tortura em caso de violência sexual] como os atos de natureza sexual cometidos contra uma pessoa sem seu consentimento. Abrange tanto a violação física do corpo humano – a penetração vaginal, anal ou oral, com partes do corpo do agressor ou com objetos – como os atos que não imponham penetração ou sequer contato físico, como o desnudamento forçado e a revista íntima. Estaria aí contemplado também o uso de animais nas genitálias, como atestam relatos prestados à CNV.
Relatório final da Comissão Nacional da Verdade,
Volume I, Parte III, Capítulo 7, p. 286,
disponível aqui.

Estou lendo "Cartas da prisão, 1969 a 1973", de Frei Betto (Ed. Agir, 2008), que reúne cartas escritas pelo autor durante a ditadura militar brasileira, de dentro dos presídios nos quais ficou. De maneira fragmentada, como é de se esperar deste estilo de texto, as cartas registram, entre outras coisas, a atuação de Paulo Evaristo Arns como arcebispo de São Paulo, na defesa dos direitos humanos, que acabou levando à organização do livro "Brasil: nunca mais" (Ed. Vozes, 1985). Confirmam também, por exemplo, relatos de outro dominicano, o Frei Tito, registrados no filme Brazil: a report on torture.  Segue então uma pequena amostra das linhas escritas por Frei Betto:

"Hoje é domingo, chuvoso e triste. Cinquenta presos se acomodam como podem pela cela. Muitos dormem no chão, sobre colchões; não há mais espaços para camas. O silêncio reflete o clima úmido desse dia cinza. Não é um silêncio de calma, de paz interior. É quase uma sufocação. Tantos juntos e poucos falam. Alguns talvez gostassem de gritar bem alto. Mas engolem esse desejo e aguardam. O quê? Não sei, ninguém sabe. Na prisão sempre se aguarda. É como a plataforma de uma estação sem trens e trilhos.
"É um silêncio triste, de alguém que, sentindo-se provocado, resiste, acumula forças para uma investida posterior. Sentimos nossa impotência. Nada a fazer, ninguém pode ajudar. Não é fossa, porque não chegamos ao desânimo. Nem ódio, pois não há desespero. Talvez raiva, uma raiva muda, paciente, diante desse labirinto do absurdo que se nos apresenta.
"(...) Ele estava bem, alegre, tranquilo, recuperado do que havia sofrido no DEOPS. Bem como todos nós, livres da fase de interrogatórios. Pouco implicado, aguardava o momento de o colocarem em liberdade. Mas veio o DOI-CODI e o levou. Isso há pouco mais de uma semana. Por quê? Ninguém soube responder, nem ele mesmo na hora de sair. Esperávamos a sua volta para o dia seguinte. Não voltou. Passaram-se os dias e ele foi ficando. Ficando naquele lugar que os próprios militares chamam de 'sucursal do inferno'.
"Hoje, soubemos que frei Tito de Alencar Lima 'tentou suicídio' no DOI-CODI... Levado ao Hospital Militar, recebeu transfusões de sangue, mas continua incomunicável. Ninguém consegue visitá-lo, nem ao menos saber o que se passa exatamente com ele. O núncio apostólico, dom Umberto Mozzoni, que nos visitou ontem, tentou vê-lo e foi barrado.
"Por isso estamos em silêncio. Amanhã o mesmo pode ocorrer com qualquer um de nós. Não temos nenhuma proteção ou garantia. Como judeus e comunistas condenados pelo nazismo. Os tempos mudam, a maldade perdura, a opressão recebe novos nomes e novas formas. Nosso silêncio é o mesmo de Maria diante de seu Filho." (Carta a Christina, 22/fev/1970)

*DEOPS: Departamento Estadual de Ordem Política e Social.
**DOI-CODI: Destacamento de Operações e Informações - Centro de Operações de Defesa Interna
*** Frei Tito morreu em 1974, no exílio. Mais a respeito, aqui.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Música popular cafona e ditadura militar

"...Na efervescência dos anos 70, o repertório popular romântico disputava o mercado com outro segmento musical, este sim, identificado às raízes e às vanguardas: a chamada MPB, composta em sua maioria por artistas metropolitanos, de origem na classe média e origem universitária, como Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo. Embora atuando na mesma época, no mesmo país, na mesma ditadura e, por vezes, na mesma gravadora, os dois segmentos não se confundiam. (...) Propagou-se então a versão de que durante a ditadura militar apenas a elite da MPB teria se posicionado como crítica ou contestadora do regime e, por conseguinte, somente ela, no campo musical, teria sido vítima da censura. (...) Hoje é sabido que naquele período nem toda a MPB foi um bastião de resistência, nem toda 'música de empregada' foi escapista e inconsequente. À sua maneira, esta última também protestou contra a ordem estabelecida, produzindo mensagens de crítica social e comportamental que mobilizaram os aparelhos de repressão do regime..."
Paulo Cesar de Araújo, março de 2004

Entre as músicas do repertório:

Tortura de amor - Waldik Soriano (1974): "...Naquele ano a prática da tortura ainda era utilizada no combate a brasileiros suspeitos de atitudes subversivas ou terroristas. (...) Por certo a música de Waldik tocava numa ferida que o regime militar não queria ver exposta pela lente ampliadora da canção popular. Afinal, como anunciava uma reportagem de capa da revista Veja no início do governo Médici: 'O presidente não admite torturas'. E, pelo visto, nem de amor."

A galeria do amor - Agnaldo Timóteo (1975): "Ousada e polêmica, esta composição faz referência à Galeria Alaska, tradicional ponto de encontro de homossexuais no Rio de Janeiro. Formando uma travessia de cerca de 100 metros entre as avenidas Atlântica e Nossa Senhora de Copacabana, no Posto 6, Zona Sul carioca, a Galeria Alaska tornou-se famosa a partir dos anos 60, quando chegou a ser classificada como o maior reduto de gays do país. (...) E, segundo Timóteo, a inspiração para compor o tema surgiu de uma experiência vivida por ele na própria galeria. O sucesso da música foi imenso e abriu o caminho para o artista sair da sombra e revelar o seu avesso: o do homem frágil, dividido, fustigado pela prática do 'amor que não ousa dizer o nome', na expressão de Oscar Wilde."

Vou tirar você desse lugar - Odair José, com Caetano Veloso (1973): "Documento de uma época, esta faixa registra o encontro histórico de Caetano Veloso e Odair José cantando juntos o hit inspirado nas prostitutas da Praça Mauá. (...) Espécie de patinho feio incluído em uma festa que reunia a nata da MPB, Odair José não poderia deixar de causar reação em um público preso a preconceitos estéticos de sua formação de classe média. E, assim que subiu ao palco - atrapalhando o público que estava ali para ouvir Caetano Veloso -, o autor de Vou tirar você desse lugar se deparou com ruidosa vaia no Palácio das Convenções do Anhembi. Reagindo à intolerância da plateia, em um tom ao mesmo tempo irônico e irritado, Caetano desferiu uma das suas frases que se tornaria famosa: 'Não existe nada mais Z do que um público classe A'."

Adaptado de: Paulo Cesar de Araújo, responsável pela seleção de repertório do CD e autor do livro Eu não sou cachorro não - música popular cafona e ditadura militar (Ed. Record, 2002), no qual as informações do encarte se encontram aprofundadas e detalhadas.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Estamira

Quem andou com Deus dia e noite,
noite e dia na boca ainda mais com os
deboches, largou de morrer? Quem fez
o que ele mandou, o que o da quadrilha
dele manda, largou de morrer? Largou
de passar fome? Largou de miséria? Ah,
não dá! Não adianta! Ninguém, nada vai
mudar meu ser.

A doutora passou remédio pra raiva. Eu fiquei
muito decepcionada, muito triste, muito
profundamente com raiva dela falar uma coisa
daquela. E aí ela ainda disse sabe o quê?
Que Deus que livrasse ela, que isso é magia,
telepatia e o caralho. Porra, porra, porra.
Pra quê, pô? Ela me ofendeu demais da quantia.

Engraçado, eu não sei se é, por incrível
que pareça, a palavra certa, o que eu
mais sinto falta na minha vida é a minha
mãe. O que eu mais lembro na minha
vida, minuto por minuto, é a minha mãe.
Um dia a minha mãe me perguntou assim,
"neném, você já viu eles?" Eu falei, "que
eles?" Ela falou, "eles é uma porção
deles". Era os astros que atentavam
ela. Os astros ofensível, negativo, que
atentava ela. Eu sou do astro positivo,
eu não sou do astro negativo. Eu sou do
astro positivo útil.

"Atesto que Estamira Gomes de Souza,
portadora de quadro psicótico de evolução
crônica, alucinações auditivas, ideias
de influências, discurso místico, deverá
permanecer em tratamento psiquiátrico
continuando, continuado."
É, bem, deficiência mental eu acho que tem
é quem é imprestável, né? Ora, quem tem
problema mental, bem, perturbação também
é, né? Perturbação, depois eu tive pensando,
perturbação também é, mas não é deficiência,
né? Perturbação é perturbação, qualquer um
pode ficar perturbado.

Eu, Estamira, eu não concordo com a vida;
eu não vou mudar o meu ser, eu fui visada
assim, eu nasci assim, e eu não admito as
ocorrências que existe, que tem existido com
os seres sanguíneos, carnívoros, terrestre.

Trechos de "Estamira: fragmentos de um mundo em abismo", livro-fotograma baseado no documentário homônimo de Marcos Prado.

domingo, 16 de novembro de 2014

Minha Grande Ternura

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.

Manuel Bandeira

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Estrambote Melancólico


Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.

Carlos Drummond de Andrade