segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O buraco do espelho

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Arnaldo Antunes

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"profissão: filósofo"?

divulgando um e-mail que recebi sobre um tema que entrou em discussão estes dias:

Prezados colegas: Tramita no Congresso Nacional, em regime conclusivo, o projeto de lei nº 2533/11, elaborado pelo depudado Giovani Cherini (PDT/RS)* . Seu objetivo é regulamentar a profissão de filósofo no Brasil. Conforme a proposta do deputado Cherini, o desenvolvimento de projetos socioeconômicos regionais, setoriais ou globais deverão contar com a participação de filósofos devidamente registrados no Ministério do Trabalho. Estarão qualificados para o exercício da profissão todos aqueles que possuírem título de bacharel em filosofia, os diplomados “em cursos similares” no exterior, após terem seus diplomas revalidados, além de mestres e doutores não diplomados que exerçam a atividade há mais de cinco anos. O mencionado projeto de lei também assegura que a profissão de “filósofo” poderá ser exercida por membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e “aos por ela diplomados”. Para conferir a íntegra do projeto de lei, acesse:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=523870
Como representante da comunidade de pós-graduação dos cursos de filosofia no Brasil, a ANPOF vem manifestar seu repúdio a tal projeto. Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literaratura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica. É tão absurdo exigir diplomação específica para alguém ser filósofo quanto seria exigir diplomação específica para alguém ser escritor. A filosofia não é e nem deve tornar-se competência exclusiva de um segmento qualquer, seja ele de natureza estamental, profissional ou ideológico. Acima de tudo, causa-nos estranheza a prerrogativa que o projeto pretende dar à Academia Brasileira de Filosofia, que qualifica como filósofos João Avelange e Carlos Alberto Torres, capitão da seleção de futebol de 1970. Trata-se de uma associação absolutamente inexpressiva no que concerne aos estudos, projetos de pesquisa e ensino da filosofia em nível universitário. A despeito disso, o referido projeto quer transformar essa entidade na representante da filosofia e da “língua filosófica” nacionais” (artigo 7). Por essas razões, endossamos o abaixo‑assinado que circula na Internet contra o mencionado projeto, que pode ser acessado a partir do link que inserimos abaixo.
http://www.change.org/petitions/abaixo-assinado-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso
Cordialmente,
Vinicius de Figueiredo (Presidente da Diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)

PS: recomendo ainda, sobre isso, a discussão no blog de Antonio Cicero.

PS2: no próprio site do abaixo-assinado há algo como uma discussão, em que convém ressaltar o seguinte trecho: "o que o texto do projeto de lei entende como filósofo é uma espécie de ideólogo, alguém que vende discursos e ideias e cumpre alguma função útil para uma entidade particular.".

sábado, 28 de maio de 2011

A vida secreta das palavras

para Tullio, grande interlocutor

Apesar de gostar de escrever, nunca fui bom em produção de texto. Lembro que no cursinho havia uma frente de língua portuguesa só para a bendita ‘produção de texto’. Não adiantou, minha pior nota no vestibular foi em redação, uma vergonha. Já no colégio eu era um desastre nas aulas de redação, nunca recebi, que eu me lembre, um elogio que fosse por uma redação propriamente dita, os primeiros elogios vieram com os textos de filosofia. Lembro de uma avaliação de português que era: escreva uma crônica. Eu fui um fracasso total. Não me lembro direito, mas deve ter sido como doar sêmen sem vontade, não que eu já tenha doado sêmen, mas não é difícil imaginar a situação. A questão é que, não sei se feliz ou infelizmente, não se escreve no vazio. Não se escreve um texto como se resolve um problema de matemática. Para fazer um texto, muito é necessário antes de escrevê-lo: é preciso conviver com ele, dormir com ele, até que ele se torne mais forte do que a gente, e a gente se sinta pequeno perto dele. Enquanto o texto é uma parte da gente, ele não está pronto: é uma perna, um braço, uma parte como qualquer outra, em que a gente se reconhece, mas que não se reconhece na gente. Da mesma forma, não é bom para um texto orgulhar-se dele, como se ele tivesse ficado bom porque a gente o escreveu. Se ele ficou bom, é porque ele sempre foi bom, só estava esperando ser escrito, alguém escrevê-lo. O quê?, você vai me perguntar, você está dizendo que o texto existe independentemente, antes de alguém escrevê-lo?! E eu vos direi que sim, e que isso é muito mais do que uma metáfora. Por quê? Porque, se a minha intuição é correta, um texto não se escreve no vazio, o que é o mesmo que dizer que os átomos e as células de um texto são o mundo. Isto significa algo ainda mais surpreendente: todos os textos falam sobre o mesmo assunto – essa coisa bruta e compacta a que se chama mundo. E se um texto fala do ego, ele não é um texto ruim, há coisas sobre as quais não se pode fazer juízo de valor: ele simplesmente não é um texto. No fundo, talvez nada seja bom ou ruim: as coisas são o que elas são – ou será que um gato, por exemplo, é algo assim como um tigre ruim? De tudo isso se segue também que, não só todos os textos têm o mesmo assunto, como nenhum é melhor do que o outro, eles têm vida própria: dizer que eles são melhores ou piores seria dizer que as pessoas gostam mais de uns do que de outros, mas são eles que têm que gostar das pessoas – quando a gente escolhe uma página ao acaso num livro, não foi ao acaso, foi ela que escolheu a gente. O fato, portanto, é que não se pode propriamente fazer um texto, ele está ali em algum lugar, no escuro, e não vale acender a luz, porque assim se vê a mesma coisa de sempre, é preciso livrar-se do vício do olhar e encontrar o texto às apalpadelas, descobrir a frieza e a quentura das coisas, as suas curvas e reentrâncias, toda a sensualidade dos objetos mais concretos, enfim, é preciso misturar-se ao mundo indo até ele, perder-se nele, esquecer a própria identidade. Talvez por isso Clarice Lispector dizia que ela não escrevia os seus livros, mas que os seus livros é que a escreviam.

domingo, 13 de março de 2011

O argumento da hipocrisia

O que pensamos quando falamos em 'politicamente correto'? Não há como negar que esta expressão é carregada de um peso negativo, independente do que ela diga, ela aparece como algo feio, algo desagradável, a quase qualquer um que a ouça. Quem ousasse fazer uma defesa do politicamente correto, certamente o faria com outras palavras. Em geral, isso me parece acontecer com várias expressões. 'Sem falsa modéstia', por exemplo, tem substituído a antiga 'modéstia à parte', o que parece indicar que atualmente toda modéstia é entendida como falsa.
Enquanto certas expressões perdem força, outras ganham. 'Hipocrisia' me parece ser uma palavra agradável à maioria dos ouvidos, uma crítica que envolva esta palavra parece sempre mais contundente. Mas até que ponto podemos confundir as palavras com o peso que elas revestem? Pensei nisto quando me deparei com a crítica de que ser ecológico é hipócrita. Ora, hipócrita é dizer uma coisa e fazer outra. Talvez um discurso ecológico possa ser hipócrita, talvez usar sacolas de pano no supermercado e não separar o lixo orgânico do reciclável seja hipócrita. Quando se diz que ser ecológico é hipócrita, está faltando alguma coisa.
Mesmo assim, um interlocutor que se agarrase apaixonadamente a esta crítica poderia ir mais longe: de que adianta separar o lixo se, do lado da tua casa, há uma fábrica contaminando um rio? Afinal, deveríamos falar com o dono da fábrica, fazer as devidas denúncias. Correto. Mas será esse um argumento para NÃO separar o lixo? Talvez SÓ separar o lixo seja o problema. Não seria de espantar, portanto, se um tal interlocutor aparecesse defendendo o assassinato: você diz que matar é errado, mas trabalha numa lanchonete que vende cigarro, e cigarro mata. Isso seria um bom exemplo de hipocrisia, mas nem de longe é um argumento em favor do assassinato.
Qual é, pois, o problema de se dizer que ser ecológico é hipócrita? Está faltando o contraste, o 'tuas idéias não correspondem aos fatos'. É claro que a hipocrisia não se reduz ao discurso, ela pode ser FALAR uma coisa e FAZER outra, mas também FAZER uma coisa e depois FAZER outra. O problema é a incoerência, e a incoerência tem sempre dois lados. Mas, se o problema é DIZER O BEM e FAZER O MAL, qual a solução? Deixemos que, pelo menos, aqueles que optam por DIZER O MAL e FAZER O MAL o façam conscientemente e em hipótese alguma sob a égide de "não ser hipócrita".

Um abraço a todos,
Otávio.

sábado, 13 de março de 2010

Utilidade Pública

"Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho; é só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a sua doença e deixar a esta o seu curso" Rilke
___
Pesquisando sobre o grupo "Introvertidos Anônimos", achei o assunto tanto na Veja, revista de circulação nacional, quanto na Gazeta do Povo, jornal de circulação local. Segue um trecho retirado da Veja:

"Depois de dois anos de pouco progresso em sessões de psicanálise, Roberto, um escrevente de 27 anos, também recorreu ao NA..." (Neuróticos Anônimos, não confundir com Narcóticos Anônimos). "...'Eu estava muito confuso', conta. 'Não entendia meus próprios sentimentos nem conseguia falar com as pessoas.' No trabalho, andava de cabeça baixa, cumpria passivamente as tarefas que lhe eram determinadas e tinha medo do chefe. Saía sempre sozinho porque não conseguia fazer amigos. Com o tempo, descobriu que suas dificuldades nada tinham a ver com as dos integrantes do Neuróticos Anônimos. Seu problema era outro: a timidez excessiva. Descobriu também a existência do Introvertidos Anônimos, um grupo de auto-ajuda..." (na verdade, mútua-ajuda, não confundir com livros ruins) "...que nasceu em São Paulo há cinco anos..." (atualmente, mais de 15 anos, já que a revista é de 99) "...e hoje reúne cerca de cinqüenta participantes. 'Eu me identifiquei muito com as histórias que ouvi nas reuniões e já progredi bastante', comemora. 'Até consigo paquerar sem ficar nervoso'."

(Reportagem de Juliana De Mari, Daniel Hessel Teich e
Pablo Nogueira, de São Paulo, Daniella Camargos,
de Belo Horizonte, e Márcio Pimentel, de Cascavel/PR)

IA em Curitiba: Praça Ouvidor Pardinho, na Rua 24 de Maio, s/nº. (Fonte: Gazeta do Povo)

PS: será que já inventaram o BA (Blogueiros Anônimos)?

quarta-feira, 3 de março de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Dia 24/02/2010, na Livraria do Paço da Liberdade (Pça Generoso Marques), às 19:00h acontece o lançamento de "pássaro ruim", segundo livro de Rodrigo Madeira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Citação



Todos os dias ela ligava
pra lembrar que estava tudo acabado.
Mas sempre esquecia de dizer adeus.


RAUL POUGH
foto by ricardo pozzo

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Crepúsculo

Um amigo meu com quem estive esses tempos no Arpoador, aqui, na cidade maravilhosa, publicou esses dias um belíssimo texto em prosa, no blog pó&teias, que vale à pena ser reproduzido aqui:

Apresentei dia desses, a um camarada meu de Curitiba, algumas das famosas praias do Rio de Janeiro: Flamengo, Urca, Leblon e Arpoador, interessante, pois já me sentia pouco à vontade ou desacostumado com vários aspectos bem próprios dos litorâneos, ainda mais dos cariocas e fluminenses, meus conterrâneos, às vezes citadinos tão soberbos de seu litoral, cuja fama e beleza é proporcional à desfiguração da cidade, mascarada para o mundo de Globo e Olimpíadas. Contudo, aqui existem pedras e existem orlas, praias onde não fiz castelos de areia, mas caminhei sobre os avatares do horizonte; há mais de seis anos não subo os mirantes que dão ornamento às encostas e quebra-mares, que, para mim, sempre foram a parte mais fascinante de um litoral, assim como a maresia da noite; ironicamente nem mesmo os meus pés se equilibram naquelas pedras com a mesma flexibilidade de antes, me esqueci até o simples hábito de lavar o chinelo no mar e tirar a areia enquanto se anda descalço no calçadão, ex-carioca mesmo; revisitar um lugar, parece uma nova permissão, a distância nos veta a presença física, regressos, somos licenciados da distância, no entanto agora, apesar da licença, sinto-me embargado no estranho deslocamento da memória. Por fim, tivemos o brinde amargo do calor e o crepúsculo de um sol anátema; dizem os meteorologistas que estamos sob um pico extraordinário de calor, provavelmente dirão o mesmo ano que vem. Ah o sol, causticamente desolador, implacável tal qual o amanhecer que te chama para o cotidiano e não para o mar, esse mesmo sol gerador do calor que de tão quente morrerá como o escorpião suicida quando cercado pelo fogo; sossegados, isso é para daqui a dez bilhões de anos, ele se transformará em carbono e tudo será uma senescente estrela anã branca.

Tullio Stefano

domingo, 27 de setembro de 2009

Conversa de botequim

Nada como chegar em seu quarto num domingo à noite e, antes de fechar a janela, ouvir uma música ao vivo bem distante, algo como amor com jeito de virada... depois ligar a tv meio chuviscada e afastar os chinelos ainda sujos de areia pra deitar na cama. Faz umas duas semanas que vim pro Rio pra estudar e só hoje conheci Copacabana, com direito à estátua de Dorival Caymmi no fim do calçadão da avenida Atlântica. Antes disso, porém, explorei bastante o centro à procura de supermercados, restaurantes e lavanderias, além do próprio quarto onde estou, depois de ficar nums hotéis na Lapa e correr Botafogo e Laranjeiras atrás de albergs e pensões: não adianta, fiquei no centro mesmo, que pelo menos é um local bem estratégico. É verdade que esses dias fui perseguido três quadras por um engraxate na avenida Rio Branco e que também já fui assaltado, mas a culpa foi minha que fui andar pelas ruas do centro no fim de semana, quando a cidade está tão deserta que parece ter sido devastada por um furacão. Além disso, mea culpa também por afetar qualquer coisa de turista, deve haver uma luzinha que se acende em minha testa e me denuncia como estrangeiro. Por sorte eu não falo muito, a não ser de vez em quando pra pedir um prato feito ou um assaí, nunca tinha comido assaí do jeito que servem aqui, aprendi também a não pedir café com leite, ainda mais leite quente, sendo preferível pedir um pingado ou uma boa média que não seja requentada. Mesmo assim, de uma forma ou de outra meu sotaque sulista acaba vindo à tona, mas como diria um camarada meu: o que importa é a sintaxe e a conjugação. Em linhas gerais, tenho sempre a impressão de que, apesar de estar meio deslumbrado, nada no Rio me parece novo, tudo passa a sensação de que já conheço de algum lugar, seja de um conto de Machado de Assis, que nunca saiu do Rio, seja de um samba de Cartola, que até hoje é superpopular na Lapa, ou seja mesmo de uma novela de Manoel Carlos. Enfim, não sou lá um grande explorador de novos lugares e nem sei se vou conhecer metade dos assim chamados pontos turísticos durante o tempo que estiver aqui, como o Redentor, que Camus chamou de algo como "um lamentável Cristo" ao avistar do navio ou avião quando chegava ao Brasil, ou tantos outros que estamos cansados de ouvir falar, nem que seja das canções da bossa nova. A propósito, outra figura já mais ou menos mítica na cidade é o profeta gentileza, uma espécie de inri cristo melhorado, famoso por seu jargão "gentileza gera gentileza" e por seus escritos nos muros com mensagens de gentileza que, segundo reza a lenda, foram todas pintadas de cinza, daí aquela música da Marisa Monte que conta justamente essa história: apagaram tudo, pintaram tudo de cinza...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

AOS ÓCULOS

Só fingem que põem
o mundo ao alcance
dos meus olhos míopes.

Na verdade me exilam
dele com filtrar-lhe
a menor imagem.

José Paulo Paes

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Arnaldo Jabor, sobre Edir Macedo

Ouça aqui o áudio de Jabor sobre o vídeo de Edir Macedo. Só não incorporo aqui, porque começa a falar sozinho. E se der tempo de dar uma passada aqui também, verá que as atuais "perseguições" ao bispo não são novas, como ele mesmo gosta de se gabar. Afinal, como diz um dos comentários em seu blog, "falem bem, falem mal, mas falem da universal". E se restar estômago depois disso tudo, não deixe de conferir, no mesmo blog, o áudio em que ele se defende com suas teorias mirabolantes sobre o fogo ardente e chega mesmo a citar Abraham Lincoln, talvez sem saber que se trata de Abraham Lincoln, dizendo que se pode enganar o povo parte do tempo, mas não todo o tempo. É uma pena que ele se esqueça da parte de que é possível enganar parte do povo todo o tempo, porque isso ele já conseguiu provar que é verdade. E viva a teologia da prosperidade!

Citação

(...) E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há (...)

Antonio Cicero, O País das Maravilhas

sábado, 8 de agosto de 2009

teoria da conspiração: gripe a em curitiba

O Caderno G ideias da Gazeta do Povo desse sábado traz toda uma analogia histórica e literária da nova gripe, comparando-a à gripe espanhola de 1918 e à peste negra da idade média, em mais uma tentativa de afastar as teorias conspiratórias que circulam nos e-mails. De fato, desde quinta-feira sem ler os e-mails, encontrei hoje dois de caráter alarmista na caixa de entrada e, se eu tivesse mais contatos, esse número certamente seria maior. A suspeita de que a imprensa estaria omitindo os casos de morte e etc. me fez lembrar de um artigo de Antonio Cicero sobre o argumento da astúcia do diabo, segundo o qual a maior astúcia deste seria provar que ele, o diabo, não existe, o que viria apenas a confirmar a existência do mesmo. Assim me parece que quanto mais a mídia tenta se justificar dizendo que não está ocultando os números e tal, mais as pessoas torcem o nariz diante da tv e apontam o dedo dizendo: tá vendo! tá vendo! ainda têm a coragem de negar! Esses dias fui na Livraria do Chaim comprar o presente do dia dos pais e um cara estava saindo com um suspiro: é... o jeito é se cuidar! o pessoal aí não tá divulgando mas a coisa tá feia mesmo... O jornal, entretanto, não pôde e nem poderia ignorar solenemente tudo isso e partiu logo pra entrevistas com psiquiatras, historiadores, sociólogos e especialistas do tipo. Quem é hipocondríaco e tem mania de limpeza vai pirar de vez, mas o melhor de tudo são as referências literárias. A reportagem de Anna Simas começa com uma citação d'A Peste, de Albert Camus: "Sei que ainda é preciso vigiar-se sem descanso para não ser levado, num minuto de distração, a respirar para a cara do outro e transmitir a infecção" e, após uma incursão por obras como Ensaio sobre a Cegueira de Saramago e O Mez da Grippe de Valêncio Xavier, a reportagem de Luciana Romagnolli retoma o escritor argelino: "Existencialista francês como Sartre, com quem rompeu por questões políticas, Camus discutiu no romance A Peste a apatia humana cultivada no cotidiano e só destituída provisoriamente em atmosferas de alerta, como na história da cidade que se atemoriza quando ratos ensanguentados emergem dos subterrâneos prenunciando a agonia que atingirá os moradores, obrigando-os a se confrontar com a precariedade de suas vidas". Apesar de Camus não ser existencialista e muito menos francês, achei super-oportuna a lembrança. É bem isso! Quer a situação seja de pânico, quer não, uma coisa é inegável: ela nos arranca da apatia cotidiana e, assim mais ou menos como uma copa do mundo, nos deixa a todos num certo clima de cumplicidade, transcendendo os problemas pessoais de cada um e os desafetos de cada um para redirecioná-los, problemas e desafetos, a esse grande inimigo em comum: um vírus metade gente, metade porco, metade frango, ou seja, um vírus que, a depeito de toda matemática, tem três metades! Agora, se o problema é sério ou não, não tenho a menor autoridade pra me pronunciar, sei que não estou nem um pouco paranóico. Parece que há a possibilidade de ser decretada calamidade pública e aí adeus volta às aulas. O jeito é pegar um desses romances aí de cima e ficar lendo...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ainda sobre o amor

...Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor. Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe. Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida...

(Rubem Braga, "Sobre o Amor, etc." in 200 crônicas escolhidas)