quarta-feira, 23 de maio de 2007

Rodrigo Madeira no wonka

Um tempo atrás eu ia lá na praça da espanha pra ler poesia com uma galerinha q escrevia, uma das vezes tava lá o Rodrigo, ele leu então uma poesia dele inspirada por uma prostituta q ele conheceu no gato preto, lésbica e prostituta. O nome da poesia era natureza-morta. Lembro q gostei. Em 2006 ele venceu o Helena Kolody na categoria paraná. Agora dia 22 publicou "Sol sem pálpebras" no Wonka bar. Tá lá o natureza-morta. Muito bom mesmo.

natureza-morta
no gato preto
hoy estoy besando un beso;
estoy solo con mis labios.
pedro salinas
teu beijo deve ter gosto de ácido de bateria
do licor das enzimas e vaginas
dos dentes do silêncio
de vestido azul sobre a cama
teu beijo deve ter gosto
do horizonte bordado de barcas
de peixe que se esbate no raso
e dos fôlegos das conchas
deve ter gosto
de margarida brotada na lua
de sangue na paleta da tarde
dos becos úmidos da cidade
da noite que aperta entre as coxas
teu beijo deve ter gosto
de lábios só saliva
das flores negras das axilas
de lesma atravessando o pátio
deve ter gosto
do amanhã, as raízes e hastes
de respiração boca a boca
dos corpos no escuro
de nuvens carregadas e mordaças
teu beijo deve ter gosto das lâminas
do aceiro de âncoras
da gasolina do açúcar
do fruto nem nascido
dos lábios da ferida
teu beijo deve ter gosto de língua
Rodrigo Madeira
Valeu a galera que me apresentou o WoNkA.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

citações

Ei! Qu@l eh o seu p®o(bl)ema?

Curso pré vest. = E agora vc.
Na cama que escolherei – Bom dia, poetas velhos
Meu amor eu não me esqueço (Marta) Não se esqueça por favor Que voltarei depres_
sa Tão logo a noite acabe Tão logo este tempo pas_
se
Parabeijarvocê.
Inglês – já não pode beber
Básico – já não pode fumar
Batel = cuspir já não pode
Quando vi flor encantada me encantei por ela, quando vi. E agora José (vc q eh s/ nome)
Não quero ser triste, como o poeta que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniênciasQUANDO
...te cansares de tudo, olha tua mão e te diz: estou cansado de tudo.
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela? (levanto a mão, é uma mão de macaco) Sim, ser vadio e pedinte como eu sou não é ser vadio e pedinte o que é corrente: é ser isolado na alma (isso é que é ser vadio) é ter que pedir aos dias que passem e nos deixem (isso é que é ser pedinte).
‘Uns’ te preferem suicida
eu te quero (terei a mulher que quero) pela vida que celebraste na flauta de uma vértebra patética (José, e agora?) molhada no sangue rubro de um crepúsculo de outubro (se bem me lembro) armandoglaucodalton: o pauloleminski é um cachorro louco (o filhodaputa)
me-vou em! (Vem, vambora!) Bora pra Pasárgada!
Quando as amantes e o amigo te transformarem num trapo faça um poema, (V. Perneta des. Motta – Claris_
se) vo-cê-mar-cha-Jo_
sé Joseparaonde? faça um poema, JoaquimQUE
...me vale o teu amor, Ziza, se o que eu vejo é o viaduto e muitos, muitos carros? Material did. (Samara) Meu amor é simples, Dora, – mensal – como a água e o pão. Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
Lembrar: meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão.

P.S.: Coitado do Álvaro de Campos, tão isolado na vida, tão deprimido nas sensações (coitado dele), enfiado na poltrona de sua melancolia (coitado dele).

(des)organização: Otávio

domingo, 20 de maio de 2007

Pingos no i - de como ser otávio é ser pseudo

Acreditar que autor e narrador têm uma ligação direta é tão ignorante quanto afirmar "estudo demais deixa louco". É óbvio que o narrador tem uma ligação forte com o autor, mas os autores policiais não são assassinos, Goethe escreveu Werther com muita pessoalidade mas não se matou, e talvez até os autores de best-sellers não sejam tão ignóbeis quanto suas obras.
Ora, se é para ser freudiano, quem diz que ‘toda ficção é autobiográfica’ deve ser tão bitolado que nunca conseguiu escrever nada que não fosse autobiográfico. É como dizer que o dentista é um dente ambulante ou que o escriturário é um arquivo em pessoa. É fácil repetir "os conceitos da psicanálise vulgarizada" (como diria Adorno) sem dar argumentos para isso. Maiakovski e Torquato Neto, para ficar só com dois exemplos, suicidaram-se. Manuel Bandeira tinha tuberculose, etc. Porém o legado desses poetas transcende qualquer caráter autobiográfico. Os lugares-comuns psicanalóides que passam de boca em boca são, no mínimo, reducionistas.
A palavra "depressivo" nunca esteve tão na moda, no entanto esquece-se de palavras como "catarse". Infelizmente nem todo mundo tem tempo de ler um livro que seja, como a Poética de Aristóteles, por exemplo. Afinal, estudar demais deixa louco, não é mesmo? Eu tive um professor no cursinho que nos aconselhava só conversar com quem soubesse logarítmo. "Puxou conversa no ponto de ônibus, - dizia ele - você pergunta: - 'sabe logarítmo? Não? Então não fale comigo'". Às vezes tenho vontade de fazer assim: 'leu Machado de Assis? Não? Então não fale comigo'.
Alguém disse que se as pessoas não precisam da filosofia, a filosofia também não precisa das pessoas, o mesmo vale para a literatura. Como diria Fernando Pessoa, "tudo menos importar-me com a humanidade". Ou Nietzsche no prólogo do Anticristo, ao falar de seus poucos leitores: “ que importa o resto? O resto é apenas a humanidade”. Mas concordar com isso seria de uma responsabilidade muito grande, prefiro concordar com Paulo Leminski: “Escrevo e pronto. Tem que ter por quê?”.


Otávio

sábado, 19 de maio de 2007

Clube da esquina


E falando em Minas...
Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim
O que vou dizer você nunca ouviu de mim pois minha timidez não me deixou falar por muito tempo, para mim você é a luz que revela os poemas que fiz
Se eu cantar não chore não, é só poesia
Se eu morrer não chore não, é só a lua
Você me quer forte e eu não sou forte mais
Sou o fim da raça, o velho, o que já foi
Da janela lateral do quarto de dormir vejo uma igreja, um sinal de glória, vejo um muro branco e um vôo pássaro, vejo uma grade, um velho sinal.
Vento de maio, rainha dos raios, estrela cadente.
E se no rádio do carro eu escuto a nossa canção
Sol girassol e meus olhos abertos pra outra emoção
E quase que eu me esqueci que o tempo não pára nem vai esperar
Vento de maio, rainha dos raios do sol
Rouxinol me ensinou que é só não temer
Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo
Todo amor será comunhão
O mal não faço
Eu quero o bem
Lô Borges, Milton Nascimento, Fernando Brandt, Ronaldo Bastos e cia ltda

sexta-feira, 18 de maio de 2007

sábado, 12 de maio de 2007

Esperando o madrugueiro

- Daê piá!
- Daê.
- Dando um rolê pelo centro?
- É.
- Chegou a ir ali no Danny's?
- Nem fui.
- Vai pegar o colombo também?
- O pinhais.
- Eu morei ali na vila perneta um tempo.
- É?
- E o Catarina, tá funcionando ainda?
- Tá.
- Eu ia lá direto, antigamente.
- Hum...
- Dei umas mancada essa noite.
- O quê?
- Peguei umas vagabunda aí e empenhei o celular de trezentos pau por deizão. E elas não quer nem saber né.
- Pois é.
- Tem um cigarro aí?
- Não fumo.
- Bem que faz. Tem celular?
- Tenho.
- Não quer fazer um jogo nele?
- Não.
- Então, polaco, tem um real pra inteirar o ônibus?
- Pior que não.
- Esquenta não... Falô piá!
- Falô.
- Daê moreno! Dando umas banda aí também?...

Otávio, no terminal Guadalupe

"Saiba: todo mundo teve mãe" (Arnaldo Antunes)


"Saiba: todo mundo teve pai" (Arnaldo Antunes)


Transcrevo trecho da mono de pós: Enxerto gengival. Deficiências dos tecidos moles podem ser corrigidos neste estágio de tratamento. As pequenas depressões teciduais ou as concavidades vestibulares envolvendo a crista, podem ser corrigidas pelo tecido conjuntivo subepitelial enxertado para aumentar o volume vestibularmente, se necessário. A gengivoplastia com broca diamantada é realizada também para corrigir as margens irregulares.


citação


"...azul

era o gato

azul era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu


tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)..."

Ferreira Gullar

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Gilberto Dimenstein e outros nomes

para o mestre da crônica e do humor, Luis Fernando Veríssimo

A linguagem é a coisa mais arbitrária que existe. Por que não chamamos o vizinho de cadeira e a cadeira de Sebastião? Ariranha, por exemplo, parece algum tipo de aranha mutante (tenho a impressão de que alguém já disse isso). Talvez bem-te-vi e quero-quero sejam algumas das exceções. Se dizemos leite, pensamos no branco. Se banana flambada, numa coisa mole e viscosa. Frederico: um homem de nariz fino. Carolina: uma mulher de cabelo encaracolado, etc.
Há nomes que dispensam nomeados. Gilberto Dimenstein, por exemplo, só pelo nome já dá pra saber que o cara entende de política e economia. Millôr Fernandes e Jaguar, só podiam ser cartunistas. Bóris Casói, só podia ter aquela voz arrastada. Porém há nomes que não combinam. Quem já não pensou que Eça de Queiroz fosse uma mulher, irmã da Raquel, talvez? Dalton Trevisan? Deve ser algum pintor renascentista. Paulo Coelho? Um grande escritor, parceiro parnasiano do Olavo Bilac, não?
Os presidentes são outro fracasso, deviam criar um nome artístico quando eleitos. Médici, não era ele que era médico? Geisel, lembra alguma tecnologia, ligada ao petróleo, gás. Sarney é duplamente problemático, não combina com presidente nem com poeta, lembra sarna, dá até coceira. Costa e Silva, que pobreza! Com este nome devia ser no máximo vereador. Tipo: "Sabe o Silva? Vai distribuir boné no comício". Collor: parece marca de sabão em pó; de Mello: sabão líquido. E Itamar Franco? Isso mesmo, um galináceo, ainda mais com aquela cara que ele tinha.
Outra coisa que intriga é o palavreado mais popular. Estilo: do caralho, da bexiga. Imagine: "Comprei um barbeador do caralho que faz um barulho chato da bexiga". Já dá pra imaginar o cara nu na frente do espelho, depilando o pinto e ouvindo um barulhinho lá dentro. Mas um dos termos mais ingratos é incontestavelmente a cara-de-bunda. Pô, a gente tá ali curtindo uma tristeza camoniana, porque levou um fora ou morreu um vô da gente, vem uma patricinha com uma pinta enorme na bochecha, mascando cicletes e diz:
- Nossa, que cara-de-bunda!!! - dá vontade de enfiar uma calcinha na cabeça e sair correndo.

Otávio (lembra otário, fala a verdade)

domingo, 6 de maio de 2007

Por um conceito de ateísmo

"O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria."
Sartre
Tanto para quem quer converter como para quem procura ser convertido, a fé não é um investimento, mas uma aposta. O problema é fazê-la honestamente. Problema? - poderiam objetar - Qual é o problema de se crer em Deus só de mentirinha? Bom , se a hipocrisia não fosse um problema, tudo bem. Ora, trata-se do extremo-oposto do fanatismo, igualmente perigoso. "Sou católico mas vou à zona; sou gay porém evangélico." Pascal os chamaria de "aqueles que crêem sem inspiração", Pe. José Fernandes de Oliveira de "quem acredita e não crê". No fundo, os cristãos não ligam tanto para Deus quanto para a imortalidade da alma. O católico fala em Purgatório, o protestante em Nova Jerusalém e o kardecismo em reencarnação. Voltaire lembra, no seu Dicionário Filosófico, que, no Judaísmo, Deus era promessa de prosperidade DURANTE a vida e não DEPOIS dela. No entanto, com o novo testamento, por que se preocupar com a vida, se depois continua-se existindo? Ou seja, no Cristianismo, a vida é negada e superada em prol de uma existência eterna, no nível da doutrina dos anjos. (Sobre a negação da vida: NIEZSTCHE, Friedrich - O anticristo)
Não obstante, podemos falar também num ateísmo-palavra, isto é, um ateísmo a título de bravata. "Não acredito em Deus mas numa energia cósmica; sou ateu e creio na força do pensamento." Não, estes não são ateus, pois (como lembrou uma professora uma vez) neste caso, a questão não é SE Deus existe mas QUEM Ele é. Mas por que alguém fingiria ser ateu? Dizem "céticos" como Montaigne e Voltaire, reiterados por Pascal: para pousar de intelectual. Contudo, SER ateu é diferente, é sê-lo na hora de dormir, de pegar o ônibus entre a multidão, etc., não algo que se comunica mas algo que se sente. (Sobre isto: CAMUS, Albert - O Estrangeiro)
Pascal é um bravo defensor do cristianismo e num momento ele se pergunta: Por que o ateu quer anunciar que Deus não existe se isto é triste e inútil? Qual a utilidade de uma pessoa saber que vai deixar de existir? É como tirar-lhe o chão. Porém o mesmo Pascal vai criticar a hipocrisia dizendo que deveríamos ser mais verdadeiros e não esconder aquelas opiniões que machucam.
É polêmica a questão de um ateísmo militante. Segundo Sartre, toda ação particular engaja a Humanidade inteira, é neste sentido que não se pode ser existencialista sem ser humanista. (SARTRE, Jean Paul - O existencialismo é um humanismo) Quer dizer, se alguém decide ser ateu, está com isso afirmando a legitimidade de o ser. o mesmo vale para o homossexualismo, a castidade, o serviço militar e qualquer escolha.
Se admite-se que a bíblia, por exemplo, tem todas as respostas, não há livre-arbítrio a não ser na teoria, daí, na prática, a predestinação, que é antes ideológica que divina. Traduzindo: "Deus proverá", estava escrito, é o destino, se Deus quiser, graças a Deus, Deus quis, larga na mão de Deus, etc. Eu prefiro pensar (i) que sou livre e (ii) que não vou viver para sempre. Porque, se a vida fosse eterna, ao contrário do que se pensa normalmente, nada valeria à pena. Afinal, que diferença haveria entre fazer algo agora ou daqui a mil anos?
Uma das principais críticas que se faz ao ateísmo é que tira a esperança das pessoas e não dá nada em troca. Ora, se desse, já seria uma religião. Por isso, ao invés de Marx falar numa crítica da religião, a la Feuer Bach, ele falava numa crítica do direito. Agora, o "vazio" é justamente o ponto de partida do homem, daí a teorização do desespero, o qual se opõe à esperança. Todavia, enquanto a esperança se projeta no futuro, e porquanto pode conviver com a fé, o desespero parte do presente e nele permanece, pois tem a seu favor apenas o campo da realidade.

(Otávio)

citação

Para todos os cogumelos que andam por aí:

"Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: 'Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!' e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem, é um cogumelo!" (St.-Exupéry - Pequeno Príncipe, cap. XII)

Ser entre coisas

O que seria isto, um haicai urbano?

Detrás do piercing
Dos óculos e walkman
Existe alguém?

(Otávio)