terça-feira, 27 de março de 2012

O poema que não fiz

Estou debaixo do Cristo
E estou tão triste
Queria que isto fosse um dístico
Mas o poema insiste
Uma quadra? Tampouco
Cinco versos ainda é pouco
Já estou no sétimo e nada disse
No oitavo, algo em mim desiste
Estou debaixo do Cristo
E estou tão triste

20/05/2011, na Lagoa Rodrigo de Freitas

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O buraco do espelho

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve

já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora

Arnaldo Antunes

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"profissão: filósofo"?

divulgando um e-mail que recebi sobre um tema que entrou em discussão estes dias:

Prezados colegas: Tramita no Congresso Nacional, em regime conclusivo, o projeto de lei nº 2533/11, elaborado pelo depudado Giovani Cherini (PDT/RS)* . Seu objetivo é regulamentar a profissão de filósofo no Brasil. Conforme a proposta do deputado Cherini, o desenvolvimento de projetos socioeconômicos regionais, setoriais ou globais deverão contar com a participação de filósofos devidamente registrados no Ministério do Trabalho. Estarão qualificados para o exercício da profissão todos aqueles que possuírem título de bacharel em filosofia, os diplomados “em cursos similares” no exterior, após terem seus diplomas revalidados, além de mestres e doutores não diplomados que exerçam a atividade há mais de cinco anos. O mencionado projeto de lei também assegura que a profissão de “filósofo” poderá ser exercida por membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e “aos por ela diplomados”. Para conferir a íntegra do projeto de lei, acesse:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=523870
Como representante da comunidade de pós-graduação dos cursos de filosofia no Brasil, a ANPOF vem manifestar seu repúdio a tal projeto. Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literaratura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica. É tão absurdo exigir diplomação específica para alguém ser filósofo quanto seria exigir diplomação específica para alguém ser escritor. A filosofia não é e nem deve tornar-se competência exclusiva de um segmento qualquer, seja ele de natureza estamental, profissional ou ideológico. Acima de tudo, causa-nos estranheza a prerrogativa que o projeto pretende dar à Academia Brasileira de Filosofia, que qualifica como filósofos João Avelange e Carlos Alberto Torres, capitão da seleção de futebol de 1970. Trata-se de uma associação absolutamente inexpressiva no que concerne aos estudos, projetos de pesquisa e ensino da filosofia em nível universitário. A despeito disso, o referido projeto quer transformar essa entidade na representante da filosofia e da “língua filosófica” nacionais” (artigo 7). Por essas razões, endossamos o abaixo‑assinado que circula na Internet contra o mencionado projeto, que pode ser acessado a partir do link que inserimos abaixo.
http://www.change.org/petitions/abaixo-assinado-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso
Cordialmente,
Vinicius de Figueiredo (Presidente da Diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)

sábado, 28 de maio de 2011

A vida secreta das palavras

para Tullio, grande interlocutor

Apesar de gostar de escrever, nunca fui bom em produção de texto. Lembro que no cursinho havia uma frente de língua portuguesa só para a bendita ‘produção de texto’. Não adiantou, minha pior nota no vestibular foi em redação, uma vergonha. Já no colégio eu era um desastre nas aulas de redação, nunca recebi, que eu me lembre, um elogio que fosse por uma redação propriamente dita. Lembro de uma avaliação de português que era: escreva uma crônica. Eu fui um fracasso total. Não me lembro direito, mas deve ter sido como doar sêmen sem vontade. A questão é que, não sei se feliz ou infelizmente, não se escreve no vazio. Não se escreve um texto como se resolve um problema de matemática. Para fazer um texto, muito é necessário antes de escrevê-lo: é preciso conviver com ele, dormir com ele, até que ele se torne mais forte do que a gente, e a gente se sinta pequeno perto dele. Enquanto o texto é uma parte da gente, ele não está pronto: é uma perna, um braço, uma parte como qualquer outra, em que a gente se reconhece, mas que não se reconhece na gente. Da mesma forma, não é bom para um texto orgulhar-se dele, como se ele tivesse ficado bom porque a gente o escreveu. Se ele ficou bom, é porque ele sempre foi bom, só estava esperando ser escrito, alguém escrevê-lo. O quê?, você vai me perguntar, você está dizendo que o texto existe independentemente, antes de alguém escrevê-lo?! E eu vos direi que sim, e que isso é muito mais do que uma metáfora. Por quê? Porque, se a minha intuição é correta, um texto não se escreve no vazio, o que é o mesmo que dizer que os átomos e as células de um texto são o mundo. Isto significa algo ainda mais surpreendente: todos os textos falam sobre o mesmo assunto – essa coisa bruta e compacta a que se chama mundo. E se um texto fala do ego, ele não é um texto ruim, há coisas sobre as quais não se pode fazer juízo de valor: ele simplesmente não é um texto. No fundo, talvez nada seja bom ou ruim: as coisas são o que elas são – ou será que um gato, por exemplo, é algo assim como um tigre ruim? De tudo isso se segue também que, não só todos os textos têm o mesmo assunto, como nenhum é melhor do que o outro, eles têm vida própria: dizer que eles são melhores ou piores seria dizer que as pessoas gostam mais de uns do que de outros, mas são eles que têm que gostar das pessoas – quando a gente escolhe uma página ao acaso num livro, não foi ao acaso, foi ela que escolheu a gente. O fato, portanto, é que não se pode propriamente fazer um texto, ele está ali em algum lugar, no escuro, e não vale acender a luz, porque assim se vê a mesma coisa de sempre, é preciso livrar-se do vício do olhar e encontrar o texto às apalpadelas, descobrir a frieza e a quentura das coisas, as suas curvas e reentrâncias, toda a sensualidade dos objetos mais concretos, enfim, é preciso misturar-se ao mundo indo até ele, perder-se nele, esquecer a própria identidade. Talvez por isso Clarice Lispector dizia que ela não escrevia os seus livros, mas que os seus livros é que a escreviam.

domingo, 13 de março de 2011

O argumento da hipocrisia

O que pensamos quando falamos em 'politicamente correto'? Não há como negar que esta expressão é carregada de um peso negativo, independente do que ela diga, ela aparece como algo feio, algo desagradável, a quase qualquer um que a ouça. Quem ousasse fazer uma defesa do politicamente correto, certamente o faria com outras palavras. Em geral, isso me parece acontecer com várias expressões. 'Sem falsa modéstia', por exemplo, tem substituído a antiga 'modéstia à parte', o que parece indicar que atualmente toda modéstia é entendida como falsa.
Enquanto certas expressões perdem força, outras ganham. 'Hipocrisia' me parece ser uma palavra agradável à maioria dos ouvidos, uma crítica que envolva esta palavra parece sempre mais contundente. Mas até que ponto podemos confundir as palavras com o peso que elas revestem? Pensei nisto quando me deparei com a crítica de que ser ecológico é hipócrita. Ora, hipócrita é dizer uma coisa e fazer outra. Talvez um discurso ecológico possa ser hipócrita, talvez usar sacolas de pano no supermercado e não separar o lixo orgânico do reciclável seja hipócrita. Quando se diz que ser ecológico é hipócrita, está faltando alguma coisa.
Mesmo assim, um interlocutor que se agarrase apaixonadamente a esta crítica poderia ir mais longe: de que adianta separar o lixo se, do lado da tua casa, há uma fábrica contaminando um rio? Afinal, deveríamos falar com o dono da fábrica, fazer as devidas denúncias. Correto. Mas será esse um argumento para NÃO separar o lixo? Talvez SÓ separar o lixo seja o problema. Não seria de espantar, portanto, se um tal interlocutor aparecesse defendendo o assassinato: você diz que matar é errado, mas trabalha numa lanchonete que vende cigarro, e cigarro mata. Isso seria talvez um exemplo de hipocrisia, mas nem de longe é um argumento em favor do assassinato.
Qual é, pois, o problema de se dizer que ser ecológico é hipócrita? Está faltando o contraste, o 'tuas idéias não correspondem aos fatos'. É claro que a hipocrisia não se reduz ao discurso, ela pode ser FALAR uma coisa e FAZER outra, mas também FAZER uma coisa e depois FAZER outra. O problema é a incoerência, e a incoerência tem sempre dois lados. Mas, se o problema é DIZER O BEM e FAZER O MAL, qual a solução? Deixemos que, pelo menos, aqueles que optam por DIZER O MAL e FAZER O MAL o façam conscientemente e em hipótese alguma sob a égide de "não ser hipócrita".

Um abraço a todos,
Otávio.

sábado, 13 de março de 2010

Utilidade Pública

"Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho; é só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a sua doença e deixar a esta o seu curso" Rilke
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Pesquisando sobre o grupo "Introvertidos Anônimos", achei o assunto tanto na Veja, revista de circulação nacional, quanto na Gazeta do Povo, jornal de circulação local. Segue um trecho retirado da Veja:

"Depois de dois anos de pouco progresso em sessões de psicanálise, Roberto, um escrevente de 27 anos, também recorreu ao NA..." (Neuróticos Anônimos, não confundir com Narcóticos Anônimos). "...'Eu estava muito confuso', conta. 'Não entendia meus próprios sentimentos nem conseguia falar com as pessoas.' No trabalho, andava de cabeça baixa, cumpria passivamente as tarefas que lhe eram determinadas e tinha medo do chefe. Saía sempre sozinho porque não conseguia fazer amigos. Com o tempo, descobriu que suas dificuldades nada tinham a ver com as dos integrantes do Neuróticos Anônimos. Seu problema era outro: a timidez excessiva. Descobriu também a existência do Introvertidos Anônimos, um grupo de auto-ajuda..." (na verdade, mútua-ajuda, não confundir com livros ruins) "...que nasceu em São Paulo há cinco anos..." (atualmente, mais de 15 anos, já que a revista é de 99) "...e hoje reúne cerca de cinqüenta participantes. 'Eu me identifiquei muito com as histórias que ouvi nas reuniões e já progredi bastante', comemora. 'Até consigo paquerar sem ficar nervoso'."

(Reportagem de Juliana De Mari, Daniel Hessel Teich e
Pablo Nogueira, de São Paulo, Daniella Camargos,
de Belo Horizonte, e Márcio Pimentel, de Cascavel/PR)

IA em Curitiba: Praça Ouvidor Pardinho, na Rua 24 de Maio, s/nº. (Fonte: Gazeta do Povo)

PS: será que já inventaram o BA (Blogueiros Anônimos)?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010


Dia 24/02/2010, na Livraria do Paço da Liberdade (Pça Generoso Marques), às 19:00h acontece o lançamento de "pássaro ruim", segundo livro de Rodrigo Madeira.