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sábado, 29 de abril de 2023

Três crônicas na fronteira

 Na aduana argentina, entrego o RG à funcionária.

- Tinha cabelo curto? - ela pergunta.

- Tinha - confirmo.

Ela sorri, e me entrega o documento.

"A cara de trouxa continua a mesma", deve ter pensado.


-


Na churrascaria, a mulher pergunta:

- Tem picanha?

O churrasqueiro saca o espeto como uma espada e o coloca no balcão.

- Tem mal passada? - a mulher protesta.

- O que tem é essa aqui - diz o churrasqueiro.

Silêncio.

Ela o olha bem no olho, séria, e pergunta:

- Você tem coração?


-


Ainda na churrascaria, no espaço kids, as crianças gritam entre soprano e tenor, sem musicalidade, e dão coices na piscina de bolinha, numa brincadeira incompreensível aos adultos. Até que um exagera no seu grito tenor, e o pai contemporiza:

- Não grita! Olha, tem sorvete lá...

As cinco ou seis crianças saem correndo em direção ao freezer, fazendo tremer o piso de madeira do local.

- Oba, sorvete! - diz o mais novo.

- Tem que ver se tem de milho - completa o mais velho (e mais sábio).


Otávio, Foz do Iguaçu, 2023.

sábado, 21 de março de 2020

A aranha na parede

É sábado. Ainda na cama, abro o olho e vejo uma terrível aranha na parede. Não: não foi aranha, nem foi na parede, mas foi o suficiente para tirar o meu sono. Já diria o poeta: o amor é isso, hoje beija, amanhã não beija. Esse sábado não beijou, preferiu apartar-se mais uma vez. Em seu lugar, surge sempre essa paisagem absurda: tudo que sempre esteve ali, porém “solto” como numa exposição. A roupa no cabide obedece apenas ao capricho de um curador, que em sua mente embriagada de arte quer mostrar ao público que nada faz sentido. Porque o primeiro impulso do público é vestir a roupa e ir pro trabalho. Mas... é sábado. No tanque há duas ou três folhas secas. Voaram até ali. A água da máquina irá envolvê-las numa dança plena de sentido. O único sentido que sobrou neste sábado: a complexidade da causa e do efeito. Passeio pela exposição em que acordei, como por engano. A garrafa de vinho vazia é uma peça interessante. Foi deixada sobre a mesa. Afastando-a, quase leio uma explicação no guardanapo em branco: esta garrafa simboliza a embriaguez desmedida de uma pessoa absurda; a uva, não por acaso, é tempranillo, que segundo os especialistas, “não envelhece bem” – a acidez é baixa, tem a elegância dos vinhos jovens. Também quem o bebeu não envelhece bem. Pois o tempo passou e não aprendeu a forjar um sentido, a ver a roupa fora do cabide, acompanhando o movimento do corpo, torcendo-se com as articulações. Mais do que forjá-lo, esforçou-se por relativiza-lo, com sucesso. É só isso: às vezes a engrenagem para, não se sabe bem por que, mas de todo modo ela volta a girar. Deixarei que isso aconteça amanhã. Só os suicidas têm real sede de sentido, e dela morrem. Nós, os não suicidas, convivemos bem com o absurdo. Pelo mesmo motivo que ainda não retirei as folhas secas do tanque, deixarei que os afagos do amor se afastem, e que em seu lugar venha a tempestade de areia. Basta fechar bem os olhos e a boca e aguardar um instante. Se olhar pela janela, ou melhor, pelo celular, vou ver a vida acontecendo. Posso ver todo este movimento como uma dança louca, um teatro incompreensível, mas me lembro que faço parte disto tudo. Não optei pelo suicídio porque o mundo não se tornou totalmente estranho, nem acho que se tornará. Eu danço a mesma dança que eles. Às vezes eu paro, mas ninguém percebe. Depois de amanhã é segunda, e a aranha não estará mais na parede, estará grudada na sola de algum chinelo; sentirei sono, mas levantarei cedo, vestirei a roupa e, abrindo a janela, ouvirei a música do mundo. Será hora de voltar a dançar.

sábado, 8 de junho de 2019

Resposta a Álvaro de Campos


Fernando Pessoa, com seu heterônimo mais depressivo, dizia que, passadas algumas semanas do teu suicídio, ninguém se lembrará de ti. Ele estava errado. Pois não raro me recordo do meu grande amigo Felipe, muito embora a vida imponha a todos nós o imperativo do esquecimento de tantas coisas, em favor de nossa sanidade mental. Mesmo agora, você me faz questionar, como tantas vezes me fez discordando de mim. Me questiono, por exemplo, como a tua generosidade pôde, como um carro desgovernado que bate na barreira de pneus, acabar em um ato tão egoísta. Me questiono também como, em um mundo com a sertralina, a fluoxetina, a paroxetina e tantos outros inibidores seletivos da recaptação da serotonina (com perdão da cacofonia, que sei que te incomodava), você foi parar nas estatísticas que tanto se escondem e mitigam; lembrando que este é o mesmo mundo da psicanálise que, segundo você, surgiu quando Freud leu a vontade de poder do Nietzsche com “ph”.
A nossa conversa sobre suicídio, ou sobre eutanásia, como preferíamos chamar, nunca acabou... sempre restava alguma ponta filosófica solta neste novelo. Que falta você faz em um mundo tão simplista e reducionista! Seu repúdio à esquerda sempre foi um repúdio ao reducionismo. Seu repúdio aos Beatles e aos Rolling Stones era um repúdio ao óbvio e aos cânones da modernidade líquida, nisto você fazia coro com Adorno. Seu gosto por Shakespeare era um encanto tanto pela tragédia como pela comédia, não por acaso eras um fã do pequeno Shakespeare, o Chespirito. Isto é verdade por duas lembranças que guardo com carinho de ti.
O gosto pela tragédia e pela comédia, igualmente eficazes no seu efeito catártico, se reflete no que escreveste certa vez, a saber, que se pudesses ser um animal, serias um urso bipolar. A outra lembrança diz respeito à sua leitura metafísica de Chaves, quando ostentavas em teu MSN a frase “Esperem só até eu ganhar a minha bola quadrada!”. Aparentemente, você foi tão generoso que me deixou de presente a bola quadrada dos meus questionamentos, pois até mesmo o Kiko tinha momentos de generosidade. Se não me engano foi você quem me disse uma vez: no Chaves todo mundo é fudido! Não tem ninguém perfeito. É verdade. Mas eu posso alimentar nossa conversa interrompida, sobre o suicídio, com a ideia de que os suicidas têm certo apego à perfeição. Creio que foi assim com Van Gogh e Santos Dumont. Eu me pergunto, entre outras coisas, que orelha você tanto queria pintar. Aliás, é uma pena não poder te emprestar o livro “Meu amigo pintor” da Lígia Bojunga, tenho certeza que te tocaria mais do que aquele poema do Maiakovski que você, sempre autêntico, disse não ter “entendido a pira”. Você não gostava muito de MPB, mas tenho certeza que você entendeu melhor do que ninguém o que significa “amar daquela vez como se fosse a última”. No fim todos morreremos na contramão, atrapalhando o tráfego. O tráfego, fluvial, da modernidade líquida, e quem se atrever a atravessá-lo será atropelado por barcos cheios de memes.
Uma das lembranças que guardo com mais carinho de ti é a tarde em que marcamos de ir no Paiol literário, perto da PUC, onde estudaste. No entanto, paramos para tomar uma cerveja num bar e, a certa altura, desistimos de ver o entrevistado da noite. Durante aquela cerveja, que não foi só uma, falamos de existencialismo cristão e de niilismo (pode ser que o Kierkegaard tenha entrado na história, mesmo que nenhum de nós dois o tenha lido à época), de repente você mencionou Francisco de Assis como um admirável religioso niilista, com seu niilismo mitigado. E ainda fascinados por esta inversão de expectativa, eu mencionei Jesus como um niilista “enrustido” e, embora eu estivesse apenas reverberando uma tese nietzschiana, este foi o start de uma risada que parecia que nunca mais ia acabar. Rimos tanto quanto as pessoas daquela crônica do Veríssimo que você gostava. Ou era do Rubem Braga?? Sim, era do Rubem Braga. Veríssimo era midiático demais para você (o Luís, mas não o Érico!), e não te permitias te identificar com ele apenas por causa da timidez, como talvez eu tenha feito.
Pasme, mas eu muitas vezes citei você para impressionar garotas, por exemplo com tua interpretação de “Hallowed be thy name” vis a vis O muro e O estrangeiro, respectivamente de Sartre e Camus, música da donzela de aço pela qual eras apaixonado, numa promiscuidade na qual te permitias te apaixonar por tantas outras coisas. A última vez que me lembrei inadvertidamente de ti foi quando eu conversava com uma menina no Tinder, e ela disse que gostava de humanas, e eu disse “eu também, não tenho sorte com as outras fêmeas”. Eu perdi a menina, mas não perdi a piada. Saiba que terás em mim um continuador das piadas do tio do pavê, sem que se caia na irresponsabilidade e superficialidade do atual presidente da república, por exemplo. Sei que você repudiava a far right tanto quanto a far left. Você que chegava a negar o cunho de protesto de algumas canções dos anos setenta, em favor de interpretações atemporais, que eram igualmente válidas, e que faziam parte da estratégia de drible à censura. A intensidade com que concordávamos era, pendularmente, alimentada pela intensidade com que discordávamos, talvez porque tínhamos em comum esta paixão pela linguagem e suas manifestações ao longo da história. Nem eu nem você acreditávamos em vida após a morte, mas nas últimas conversas eu me lembro do desprezo que você nutria pelo ateísmo, novamente aqui estava o seu repúdio a toda forma de reducionismo. Pois é, meu caro, como não acreditar em vida após a morte se eu mesmo tantas vezes morri, na depressão, e de certa forma sobrevivi, e você, cuja presença física me foi tão cruelmente negada, ainda está tão vivo em minha memória?

domingo, 7 de agosto de 2016

Impeachment é golpe?


Não, impeachment não é golpe, está previsto na Constituição. Não é preciso ser ministro do supremo para saber disso. Acontece que não se recebe a resposta certa fazendo a pergunta errada. A pergunta que se deve fazer, em nome de um mínimo de honestidade intelectual, é se impeachment sem crime de responsabilidade é golpe. Neste ponto, a resposta é sim. Tanto a direita quanto a esquerda devem concordar com estes dois pressupostos. Caso contrário, não pode haver uma discussão minimamente racional. Sendo assim, toda controvérsia deve se concentrar sobre se, no caso atual do Brasil, há um crime de responsabilidade ou não.
O principal argumento à direita é que houve maquiagem das contas públicas, violação da lei orçamentária. Por aí já se percebe que não se está tratando de algo como enriquecimento ilícito, e este é justamente o principal argumento à esquerda. Pois bem, é preciso deixar claro que ninguém pode ser acusado sem saber do que está sendo acusado, e por isso o processo de impeachment de Dilma Roussef se concentrou em torno das chamadas pedaladas fiscais, demora no repasse de valores a bancos públicos, e nos decretos de crédito suplementar. Este era o pressuposto jurídico sem o qual não se poderia passar para o julgamento político. Particularmente, estou convencido de que não há evidência alguma de crime de responsabilidade. Como diria Belchior: "tenho ouvido muitos discos (leia-se vídeos), conversado com pessoas", e não é difícil para mim chegar à conclusão de ausência de crime. Isto porque há vários níveis pelos quais a discussão passa e, mesmo que se conceda razão aos que são a favor do impeachment em um primeiro ou segundo nível, há um nível em que isto é, na minha opinião, impossível.
Poderíamos arbitrariamente estipular vários níveis para esta discussão, de modo a dar conta de desfazer os mais diversos mitos criados por uma dupla infalível: parcialidade de quem informa, fanatismo de quem é informado. No entanto, por didatismo, podemos fazer um recorte em três níveis:
1º. Não há enriquecimento ilícito da presidente Dilma. Isto é curioso porque muito se fala da Lava-a-jato. A julgar por dois detalhes importantíssimos que lamentavelmente demonstram parcialidade do judiciário (a condução coercitiva de Lula e o vazamento de áudios ilegais para insuflar ódio irracional na população), era de se esperar que se chegasse a Dilma, via PT, a fim de fazer o recorte jurídico que serviria de pressuposto ao julgamento político do impeachment. Como isto não foi possível, fez-se um recorte em torno das pedaladas e dos decretos.
2º. Não houve pedaladas nem decretos sem autorização do congresso. Não houve pedaladas porque não houve operação de crédito com os bancos públicos, e os créditos suplementares, que estavam condicionados ao cumprimento de uma meta orçamentária por parte do governo, foram decretados de acordo com esta meta. Não houve descumprimento da meta e, por isso, os decretos não foram ilegais. O curioso deste ponto é que o governo esteve à beira de cometer este erro de que está sendo acusado agora. Ao perceber que não cumpriria a tal meta, enviou proposta de mudança da mesma ao congresso que... aprovou a meta. O mesmo congresso que depois, com um exemplo emblemático do que significa a palavra 'cinismo', fez um julgamento político (leia-se sem fundamento jurídico) de que não houve cumprimento da meta.
3º. Neste nível, entramos em um raciocínio contrafactual. É aquele ponto em que a discussão já está praticamente terminada. Você defende A e seu interlocutor defende B e, embora haja mais evidências em favor de A, você concede a hipótese: e se B for o caso...? Pois bem, muito embora a cultura brasileira faça um movimento pendular entre o messianismo e a iconoclastia, privilegiando muitas vezes um único indivíduo em detrimento do grupo e do contexto em que está inserido, é certo que a presidente da República não governa sozinha: para isso há órgãos técnicos, os quais levam a cabo muitas decisões, corretas ou não. O fato é que decisões que partem destes órgãos técnicos eximem a presidente de dolo. O dolo é diferente da culpa, esta advém de negligência, imperícia ou imprudência. Muito se tem acusado a presidente afastada destas três coisas, talvez não sem razão, porém isto não caracteriza o dolo, que é a intenção de cometer um malfeito.
É certo que estes pontos não esgotam a discussão. Em todos os níveis, há espaço para o contraditório. Há quem traga à baila a época em que Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, há quem diga que a meta orçamentária não é anual e sim bimestral ou que o rol de crimes de responsabilidade não é exaustivo e sim exemplificativo, e há quem identifique o dolo na intenção de vencer as eleições. No entanto, raramente as discussões chegam até este ponto; há algumas que não chegam nem ao primeiro nível, mas apoiam-se em coisas como inflação e desemprego (!). Podemos chamar estes casos de nível zero da discussão, quando nosso interlocutor dá de ombros e afirma: pois que seja golpe! Neste ponto, voltamos a 1964, e percebemos que a cultura democrática brasileira ainda tem muito o que aprender.
Desnecessário dizer que a mídia apoiou as manifestações pró-impeachment, e não deixou a menor dúvida de sua parcialidade quando abafou a delação de Sérgio Machado, em que Romero Jucá fala explicitamente da intenção de colocar "o Michel" no poder. Lembro que aguardei ansioso para assistir ao Jornal da Globo e ver o que William Waack afirmaria em seu editorial e... nenhuma menção ao Michel. (Aliás, parece que a principal notícia aquele dia na GloboNews era a Venezuela). Para concluir, e lembrando a frase de Brecht de que o pior analfabeto é o analfabeto político, não duvido de que, numa enquete destinada a perguntar se o caso de Dilma se assemelha mais ao de Collor ou ao de João Goulart, boa parte das respostas seriam: "quem é João Goulart?".

sábado, 6 de abril de 2013

Desencontro

Daniela esteve aqui hoje, procurando por mim. A dona da casa lhe disse que eu não estava, mas que ela podia esperar no meu quarto, se quisesse. Ela esperou por quinze minutos. Tentei ligar, mas o número não existia. Sentei na cama, pensei: ela deve ter sentado aqui. Imaginei seu campo de visão. As mãos metidas entre as coxas. Ao lado da cama, um livro vagabundo, um best-seller. Meu mau gosto, pensei, meu mau gosto terá sido um sinal de que me resta algo de humano. Sobre a cômoda, a nota fiscal do restaurante que frequento. Bem se vê que não sou pessoa de luxo. Nenhuma revista pornográfica nas prateleiras. Melhor assim: a imagem de um homem se masturbando, segurando a folha que o vento ameaça virar, não é das melhores. As roupas jogadas no chão terão sido um sinal de um certo desleixo, de um homem que tem coisas mais importantes pra pensar. Os analgésicos, os calmantes, os anti-histamínicos. Gostaria de ter explicado que os anti-depressivos são temporários. Daniela deve ter achado que minha vida é difícil. Não deixa de ser. Olho no relógio, passou-se quase uma hora. Uma hora é bem mais que quinze minutos. Daniela não quis deixar recado. Mas percebo que ela entreabriu a janela. Deve ter sido isso. Percebeu que o mundo lá fora é muito maior.

(28/03/2013)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dezembro

foto por ricardo pozzo
Foi durante o seu terceiro sumiço, e eu nem imaginava que você voltaria e que sumiria de novo. Eu sentia muito a sua falta. Levantei-me mais cedo no sábado e fui até o teatro. Entrei e me sentei, considerei os meus problemas, a minha angústia de fim de ano. Lembrei-me de quando você, por qualquer motivo, costumava dizer “está tudo bem”, e estas palavras tinham um poder mágico sobre mim. Só você podia me dizer esta frase sem que ela fosse falsa. Pensei em fazer um poema ou coisa assim, qualquer coisa em que eu pudesse dizer: “eu só quero ouvir você me dizer que está tudo bem”, mas foi mais um dos textos que eu comecei só na minha cabeça e rasguei já na minha cabeça. Foi um dos seus mais longos sumiços e eu mal podia imaginar que você voltaria. Mas você voltou. Voltou e disse que tudo não passou de um grande mal-entendido. Você tinha esse jeito de achar as coisas simples, a vida simples, e eu me sentia intimamente reconfortado. Lembrei-me então daquela manhã no teatro: eu finalmente começava a me convencer de que estava tudo bem. Mas esta vez que você voltou durou pouco: dois estranhos que se encontram no ponto de ônibus e compartilham a indignação da demora, duas pessoas que se escondem da chuva embaixo da mesma marquise. E então o ônibus chega, a chuva passa, e não há nada que a gente possa fazer. Durou pouco, e quando você voltou pela quarta e última vez, eu lhe deixei sem resposta, porque eu tinha medo das palavras que se seguiriam. Estas palavras estão dentro de você, talvez passe um ano, dois, e você as esqueça, e eu pare de imaginá-las. E talvez um dia alguém me diga que está tudo bem e eu me sinta intimamente reconfortado e me lembre de você. Ou talvez não me lembre. (07/12/2010)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

The stranger

Vai fazer duas semanas que cheguei nos Estados Unidos e foi o suficiente pra eu sentir vontade de escrever, digo, essa vontade de narrar os fatos a todos e a ninguém. Como diria Drummond: "preciso de todos", ele que se expunha "cruamente nas livrarias". Escrevo de uma espécie de praça de alimentação na Michigan Union, um prédio do Campus Central da Universidade de Michigan em Ann Arbor, cidade vizinha a Detroit, que foi por onde eu entrei no país. Já na saída de Guarulhos, fiquei meio assustado com o hello, welcome; hello, welcome na entrada do avião, meu inglês definitivamente não é dos melhores. Perguntei em português ao passageiro do meu lado onde era o banheiro, ele disse I don't understand, então criei coragem e perguntei à aeromoça: excuse me, is there a restroom here?. É estranho falar inglês fora de uma aula de inglês. No desembarque em Detroit, depois de caminhar um bom pedaço por um corredor, pedi informação a um funcionário do aeroporto que me mostrou a fila dos visitantes e esclareceu: lugagge after inspection. Então foi só passar pela inspeção, pegar a bagagem e passar pela alfândega. Em seguida, após me informar numa casa de câmbio, sentei num banco à espera do ônibus que me traria a Ann Arbor. Alguém me perguntou algo sobre o jogo de futebol americano do dia anterior, ao que respondi com aquela frase que viria a repetir algumas vezes: I'm a stranger here, sorry, não sem gaguejar um pouco. Logo embarquei no ônibus da Michigan Flyer que me deixou no centro de Ann Arbor, onde desci empunhando duas folhas impressas do google maps. Com a ajuda do motorista, então, consegui localizar uma das principais ruas da cidade: a South State Street. Depois disso, tudo correu bem, me instalei, tomei um banho, e no dia seguinte pude conhecer melhor a cidade. O café aqui, em confirmação do que eu já havia lido num guia de viagem, é meio fraco, deve ser por isso que vem em copos bem grandes. Tanto melhor: assim tenho uma razão a mais pra me demorar nos cafés, que são lugares agradáveis e aquecidos, provavelmente bons refugios para quando a neve chegar, e/ou em eventuais sensaçoes de exílio. "Vivendo muito tempo num lugar estranho - diz Tim Maia, na canção 'Neves e Parques' - a gente tem medo de pensar / que nao volta pra casa nunca mais". E por falar em exílio, achei num sebo um livro cujo título estava curioso pra saber se aqui seria The foreign ou The stranger, agora eu sei que é The stranger e se encontra disponível em duas versões: uma britânica e outra americana, mais recente, que não hesitei em comprar. Como diz o tradutor, Matthew Ward, "Camus reconheceu empregar um 'método americano' ao escrever 'O estrangeiro', em especial na primeira parte do livro: as curtas, precisas sentenças..." (Camus acknowledged employing an 'American method' in writing 'The Stranger', in the first half of the book in particular: the short, precise sentences...). Só espero que depois não digam que eu voltei americanizado...

sábado, 28 de maio de 2011

A vida secreta das palavras

para Tullio, grande interlocutor

Apesar de gostar de escrever, nunca fui bom em produção de texto. Lembro que no cursinho havia uma frente de língua portuguesa só para a bendita ‘produção de texto’. Não adiantou, minha pior nota no vestibular foi em redação, uma vergonha. Já no colégio eu era um desastre nas aulas de redação, nunca recebi, que eu me lembre, um elogio que fosse por uma redação propriamente dita. Lembro de uma avaliação de português que era: escreva uma crônica. Eu fui um fracasso total. Não me lembro direito, mas deve ter sido como doar sêmen sem vontade. A questão é que, não sei se feliz ou infelizmente, não se escreve no vazio. Não se escreve um texto como se resolve um problema de matemática. Para fazer um texto, muito é necessário antes de escrevê-lo: é preciso conviver com ele, dormir com ele, até que ele se torne mais forte do que a gente, e a gente se sinta pequeno perto dele. Enquanto o texto é uma parte da gente, ele não está pronto: é uma perna, um braço, uma parte como qualquer outra, em que a gente se reconhece, mas que não se reconhece na gente. Da mesma forma, não é bom para um texto orgulhar-se dele, como se ele tivesse ficado bom porque a gente o escreveu. Se ele ficou bom, é porque ele sempre foi bom, só estava esperando ser escrito, alguém escrevê-lo. O quê?, você vai me perguntar, você está dizendo que o texto existe independentemente, antes de alguém escrevê-lo?! E eu vos direi que sim, e que isso é muito mais do que uma metáfora. Por quê? Porque, se a minha intuição é correta, um texto não se escreve no vazio, o que é o mesmo que dizer que os átomos e as células de um texto são o mundo. Isto significa algo ainda mais surpreendente: todos os textos falam sobre o mesmo assunto – essa coisa bruta e compacta a que se chama mundo. E se um texto fala do ego, ele não é um texto ruim, há coisas sobre as quais não se pode fazer juízo de valor: ele simplesmente não é um texto. No fundo, talvez nada seja bom ou ruim: as coisas são o que elas são – ou será que um gato, por exemplo, é algo assim como um tigre ruim? De tudo isso se segue também que, não só todos os textos têm o mesmo assunto, como nenhum é melhor do que o outro, eles têm vida própria: dizer que eles são melhores ou piores seria dizer que as pessoas gostam mais de uns do que de outros, mas são eles que têm que gostar das pessoas – quando a gente escolhe uma página ao acaso num livro, não foi ao acaso, foi ela que escolheu a gente. O fato, portanto, é que não se pode propriamente fazer um texto, ele está ali em algum lugar, no escuro, e não vale acender a luz, porque assim se vê a mesma coisa de sempre, é preciso livrar-se do vício do olhar e encontrar o texto às apalpadelas, descobrir a frieza e a quentura das coisas, as suas curvas e reentrâncias, toda a sensualidade dos objetos mais concretos, enfim, é preciso misturar-se ao mundo indo até ele, perder-se nele, esquecer a própria identidade. Talvez por isso Clarice Lispector dizia que ela não escrevia os seus livros, mas que os seus livros é que a escreviam.

domingo, 13 de março de 2011

O argumento da hipocrisia

O que pensamos quando falamos em 'politicamente correto'? Não há como negar que esta expressão é carregada de um peso negativo, independente do que ela diga, ela aparece como algo feio, algo desagradável, a quase qualquer um que a ouça. Quem ousasse fazer uma defesa do politicamente correto, certamente o faria com outras palavras. Em geral, isso me parece acontecer com várias expressões. 'Sem falsa modéstia', por exemplo, tem substituído a antiga 'modéstia à parte', o que parece indicar que atualmente toda modéstia é entendida como falsa.
Enquanto certas expressões perdem força, outras ganham. 'Hipocrisia' me parece ser uma palavra agradável à maioria dos ouvidos, uma crítica que envolva esta palavra parece sempre mais contundente. Mas até que ponto podemos confundir as palavras com o peso que elas revestem? Pensei nisto quando me deparei com a crítica de que ser ecológico é hipócrita. Ora, hipócrita é dizer uma coisa e fazer outra. Talvez um discurso ecológico possa ser hipócrita, talvez usar sacolas de pano no supermercado e não separar o lixo orgânico do reciclável seja hipócrita. Quando se diz que ser ecológico é hipócrita, está faltando alguma coisa.
Mesmo assim, um interlocutor que se agarrase apaixonadamente a esta crítica poderia ir mais longe: de que adianta separar o lixo se, do lado da tua casa, há uma fábrica contaminando um rio? Afinal, deveríamos falar com o dono da fábrica, fazer as devidas denúncias. Correto. Mas será esse um argumento para NÃO separar o lixo? Talvez SÓ separar o lixo seja o problema. Não seria de espantar, portanto, se um tal interlocutor aparecesse defendendo o assassinato: você diz que matar é errado, mas trabalha numa lanchonete que vende cigarro, e cigarro mata. Isso seria talvez um exemplo de hipocrisia, mas nem de longe é um argumento em favor do assassinato.
Qual é, pois, o problema de se dizer que ser ecológico é hipócrita? Está faltando o contraste, o 'tuas idéias não correspondem aos fatos'. É claro que a hipocrisia não se reduz ao discurso, ela pode ser FALAR uma coisa e FAZER outra, mas também FAZER uma coisa e depois FAZER outra. O problema é a incoerência, e a incoerência tem sempre dois lados. Mas, se o problema é DIZER O BEM e FAZER O MAL, qual a solução? Deixemos que, pelo menos, aqueles que optam por DIZER O MAL e FAZER O MAL o façam conscientemente e em hipótese alguma sob a égide de "não ser hipócrita".

Um abraço a todos,
Otávio.

domingo, 27 de setembro de 2009

Conversa de botequim

Nada como chegar em seu quarto num domingo à noite e, antes de fechar a janela, ouvir uma música ao vivo bem distante, algo como amor com jeito de virada... depois ligar a tv meio chuviscada e afastar os chinelos ainda sujos de areia pra deitar na cama. Faz umas duas semanas que vim pro Rio pra estudar e só hoje conheci Copacabana, com direito à estátua de Dorival Caymmi no fim do calçadão da avenida Atlântica. Antes disso, porém, explorei bastante o centro à procura de supermercados, restaurantes e lavanderias, além do próprio quarto onde estou, depois de ficar nums hotéis na Lapa e correr Botafogo e Laranjeiras atrás de albergs e pensões: não adianta, fiquei no centro mesmo, que pelo menos é um local bem estratégico. É verdade que esses dias fui perseguido três quadras por um engraxate na avenida Rio Branco e que também já fui assaltado, mas a culpa foi minha que fui andar pelas ruas do centro no fim de semana, quando a cidade está tão deserta que parece ter sido devastada por um furacão. Além disso, mea culpa também por afetar qualquer coisa de turista, deve haver uma luzinha que se acende em minha testa e me denuncia como estrangeiro. Por sorte eu não falo muito, a não ser de vez em quando pra pedir um prato feito ou um assaí, nunca tinha comido assaí do jeito que servem aqui, aprendi também a não pedir café com leite, ainda mais leite quente, sendo preferível pedir um pingado ou uma boa média que não seja requentada. Mesmo assim, de uma forma ou de outra meu sotaque sulista acaba vindo à tona, mas como diria um camarada meu: o que importa é a sintaxe e a conjugação. Em linhas gerais, tenho sempre a impressão de que, apesar de estar meio deslumbrado, nada no Rio me parece novo, tudo passa a sensação de que já conheço de algum lugar, seja de um conto de Machado de Assis, que nunca saiu do Rio, seja de um samba de Cartola, que até hoje é superpopular na Lapa, ou seja mesmo de uma novela de Manoel Carlos. Enfim, não sou lá um grande explorador de novos lugares e nem sei se vou conhecer metade dos assim chamados pontos turísticos durante o tempo que estiver aqui, como o Redentor, que Camus chamou de algo como "um lamentável Cristo" ao avistar do navio ou avião quando chegava ao Brasil, ou tantos outros que estamos cansados de ouvir falar, nem que seja das canções da bossa nova. A propósito, outra figura já mais ou menos mítica na cidade é o profeta gentileza, uma espécie de inri cristo melhorado, famoso por seu jargão "gentileza gera gentileza" e por seus escritos nos muros com mensagens de gentileza que, segundo reza a lenda, foram todas pintadas de cinza, daí aquela música da Marisa Monte que conta justamente essa história: apagaram tudo, pintaram tudo de cinza...

sábado, 8 de agosto de 2009

teoria da conspiração: gripe a em curitiba

O Caderno G ideias da Gazeta do Povo desse sábado traz toda uma analogia histórica e literária da nova gripe, comparando-a à gripe espanhola de 1918 e à peste negra da idade média, em mais uma tentativa de afastar as teorias conspiratórias que circulam nos e-mails. De fato, desde quinta-feira sem ler os e-mails, encontrei hoje dois de caráter alarmista na caixa de entrada e, se eu tivesse mais contatos, esse número certamente seria maior. A suspeita de que a imprensa estaria omitindo os casos de morte e etc. me fez lembrar de um artigo de Antonio Cicero sobre o argumento da astúcia do diabo, segundo o qual a maior astúcia deste seria provar que ele, o diabo, não existe, o que viria apenas a confirmar a existência do mesmo. Assim me parece que quanto mais a mídia tenta se justificar dizendo que não está ocultando os números e tal, mais as pessoas torcem o nariz diante da tv e apontam o dedo dizendo: tá vendo! tá vendo! ainda têm a coragem de negar! Esses dias fui na Livraria do Chaim comprar o presente do dia dos pais e um cara estava saindo com um suspiro: é... o jeito é se cuidar! o pessoal aí não tá divulgando mas a coisa tá feia mesmo... O jornal, entretanto, não pôde e nem poderia ignorar solenemente tudo isso e partiu logo pra entrevistas com psiquiatras, historiadores, sociólogos e especialistas do tipo. Quem é hipocondríaco e tem mania de limpeza vai pirar de vez, mas o melhor de tudo são as referências literárias. A reportagem de Anna Simas começa com uma citação d'A Peste, de Albert Camus: "Sei que ainda é preciso vigiar-se sem descanso para não ser levado, num minuto de distração, a respirar para a cara do outro e transmitir a infecção" e, após uma incursão por obras como Ensaio sobre a Cegueira de Saramago e O Mez da Grippe de Valêncio Xavier, a reportagem de Luciana Romagnolli retoma o escritor argelino: "Existencialista francês como Sartre, com quem rompeu por questões políticas, Camus discutiu no romance A Peste a apatia humana cultivada no cotidiano e só destituída provisoriamente em atmosferas de alerta, como na história da cidade que se atemoriza quando ratos ensanguentados emergem dos subterrâneos prenunciando a agonia que atingirá os moradores, obrigando-os a se confrontar com a precariedade de suas vidas". Apesar de Camus não ser existencialista e muito menos francês, achei super-oportuna a lembrança. É bem isso! Quer a situação seja de pânico, quer não, uma coisa é inegável: ela nos arranca da apatia cotidiana e, assim mais ou menos como uma copa do mundo, nos deixa a todos num certo clima de cumplicidade, transcendendo os problemas pessoais de cada um e os desafetos de cada um para redirecioná-los, problemas e desafetos, a esse grande inimigo em comum: um vírus metade gente, metade porco, metade frango, ou seja, um vírus que, a depeito de toda matemática, tem três metades! Agora, se o problema é sério ou não, não tenho a menor autoridade pra me pronunciar, sei que não estou nem um pouco paranóico. Parece que há a possibilidade de ser decretada calamidade pública e aí adeus volta às aulas. O jeito é pegar um desses romances aí de cima e ficar lendo...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Elogio da Astrologia

Apesar de não conseguir acreditar em coisas como Deus ou imortalidade da alma e, por incrível que pareça, nem mesmo na infalibilidade papal, devo admitir, envergonhado, que acredito em horóscopo. Talvez porque o meu signo nunca disse que, se eu não jogasse naquele bicho ou naquele número da sorte, eu queimaria no fogo do inferno, mas no máximo algo como "você poderá se arrepender" ou "poderá haver complicações". Nada tão assustador... Além do mais, nada mais cético do que o astrólogo que, após agrupar uma série de frases ambíguas (com no mínimo três sentidos cada uma), acrescenta a todas o escopo "poderá talvez" e, com o texto pronto, após o ponto final, escreve: "Ou não". Aliás, na Astrologia até o ponto final tem duplo sentido, se olharmos bem.
Além disso, meu signo nunca falou muito mal de mim. Pelo contrário, disse sempre que sou inteligente, criativo, comunicativo, empreendedor, que tenho bom coração... e com uma tal entonação, com tamanha ênfase, que chego a ter pena dos outros signos, provavelmente uns idiotas miseráveis. Ao fim, posso fechar o jornal ou desligar o rádio assobiando e tomar meu café com pose de intelectual, olhando o crepúsculo pela janela com a sensibilidade que só os grandes espíritos têm. E se alguma vez meu signo falou mal de mim, posso dizer que o fez com simpatia e cumplicidade, tipo: você pode até não se dar bem no trabalho, nem no amor, espantar os amigos, ser expulso da família, mas tudo isso acontece sempre com os melhores geminianos. Quer dizer, além de cético, o horóscopo é determinista, o que é ótimo, já que a doutrina do livre-arbítrio desperta demais meu complexo de culpa.
Fico pensando no astrólogo quando se depara com a tarefa de descrever seu próprio signo. Deve escolher diligentemente as melhores qualidades, cuidando para evitar contradições como "extrovertido, reservado..." e, ao final, para dissipar qualquer suspeita, colocar: "Além de tudo, as pessoas deste signo costumam ser muito modestas". Sem falar que, ao tratar dos defeitos, a simpatia e a cumplicidade se tornariam uma complacência, uma condescendência tal, de dar inveja ao "vá em paz" de Jesus.
E o principal, the last but not the least: mais do que cético e determinista, o horóscopo não emite juizos morais - longe de ser prescritivo como as religiões éticas, é antes descritivo como as religiões mágicas. Está mais próximo, pois, juntamente com todo esoterismo, da mitologia que da filosofia, do politeísmo que do monoteísmo, do ser que do dever ser. Consequentemente - e era aqui que eu queria chegar - está mais preocupado com esta vida do que com uma eventual além-vida. E é por essas e outras que sou chegado numa Astrologia, que "pago pau" pros caras, porque no fundo, afinal, amomuitotudoisso. Mas como diria Gilberto Gil: até que nem tanto esotérico assim... Ou não.

sábado, 2 de maio de 2009

Nazismo em Curitiba

Ao ler esta reportagem, não sem um certo susto e a boa e velha náusea, fui atrás dos referidos sites de orientação nazista, quer dizer, de "orgulho branco", que fazem apologia ao nazismo e coisas do tipo. Como, no caso, os assassinados eram nazistas, o comentário de um tal de Mr. Blonde em um destes sites diz: "Isto é um assassinio a um casal nacionalista, cujo o único 'crime' foi a sua ideologia politica...", e, não satisfeito em pôr crime entre aspas, conclui: "Que raiva...". Acontece que foi praticado, ao que tudo indica, em nome de outra ideologia política, na verdade outra corrente da mesma ideologia. As vítimas, apesar de serem nazistas, eram mais ou menos contra a violência (o que - parafraseando a reportagem - deporia contra o grupo e complicaria a aceitação do movimento pela sociedade), por isso foram exterminadas, provavelmente pelos próprios nazistas, que pra mim não passam de uma única grande corrente. Este fato parece também não ter sido observado por outro destes sites apologistas (atenção para a suástica), que se contenta em reputar o motivo como 'desconocido' e citar 'el delegado' (a notícia é brasileira, mas o blog é argentino): “Aún no sabemos si ellos fueron muertos por una persona que estaba dentro del coche con ellos o si fueron abordados en la carretera por el asesino”, além de aventar - faz tempo que estou querendo usar esta palavra - a hipótese de latrocínio. No terceiro dos 3 sites em questão, sob o lema "White Pride World Wide", não consegui achar sobre o assunto, mas como se trata de nazismo escarrado, pude achar coisas muito mais repugnantes, como esta ironia no título de um dos links: Mamãe, eu sou contra o Nazismo!!, e coisas pitorescas como a referência à afirmação de Lula de que 'brancos de olhos azuis' seriam responsáveis pela crise financeira ou algo assim: o tipo de afirmação sem pensar que joga água no moinho de oportunistas, e até uma espécie de fundamentação bíblica para a anti-miscigenação, o que não espanta nem um pouco, já que a Bíblia é cheia destes disparates e os nazistas são plenamente capazes de religiosidade, como se vê pela sua tendência ao culto de Odin, "o deus dos nórdicos", e por sua crença na vida após a morte em Valhalla, "aonde vivem os fortes". Mas isto não vem ao caso, o fanatismo político destes seres humanos (putz!) já vai muito mais longe do que este seu inocente devaneio religioso, já estou fugindo do tema, como diria o Mr. Blonde: Que raiva... Expressão que, aliás, vinda de entusiastas do crime de ódio (e sem aspas, por favor!), não poderia ser mais cínica.

terça-feira, 3 de março de 2009

Mais uma de ônibus


O ligeirinho pára no tubo, entro pela porta da frente. Passo o olho pelo interior do ônibus. Um gordo em pé, mal acomodado na parte reservada a cadeiras de roda, olha para trás, como se procurasse alguém. Seu pescoço, todo torcido, não me deixa ver seu rosto, de modo que vejo apenas sua mandíbula ruminando um chiclete.
Procuro olhar a rua, molhada da chuva. À minha frente um banco vazio, nele uma pequena poça de água dança de um lado a outro, embalada pelo andar do veículo. Sem querer, minha vista encontra o gordo de novo, olhando para trás outra vez.
De repente o motorista freia, ou bate, meus pés pulam do piso. Todos gritam, fazem exclamações, uns riem. Nesta fração de segundo, olho o lugar das cadeiras de roda, desta vez o gordo não olha para trás. Do ferro em que está sentado, é lançado num salto para frente, batendo com o rosto contra o ferro de segurar-se. Após o choque, afinal consigo ver seu rosto, o olhar com alto grau de estrabismo, o que lhe dá um ar de perdido. “Então ele era vesgo”, pensei, “ou ficou agora”?

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Mais uma noite sem sono

É estranho estar acordado na escuridão. É como estar consciente sem saber do quê. A lâmpada fluorescente é como se fosse a lua, e o interruptor a primeira estrela no céu. Dizem que, quando vemos uma estrela no céu, às vezes ela não está lá. É que ela fica tão longe, mas tão longe, que a luz leva alguns milhares de anos pra chegar aqui. Se todas as pessoas, quando ficassem deprimidas, pensassem que as estrelas podem nos pregar esta peça, talvez deixassem escapar um sorriso, nem que fosse o riso frio dos que riem só pra mostrar que entenderam o raciocínio, mas ririam assim pra si mesmas, como quem raciocina sozinho, ao ler um texto, por exemplo.
Ler um texto é sempre muito solitário, sobretudo quando se vê, pelo reflexo da janela no seu monitor, que constroem muros do outro lado da rua. Mas, cá entre nós, que sabem eles das estrelas? É uma questão de lembrar que uma estrela existe, mesmo que esteja bem longe, e que ela pode brilhar, mesmo que não exista. Sim, porque as estrelas têm o humor que só os suicidas sabem ter, os suicidas que deixam sobre a mesa apenas um bilhete engordurado dizendo "fui", talvez "adeus" e quem sabe até "I love you, I love you, I love you".
E o leitor que não ria: sofresse da insônia que eu sofro, também transformaria seu quarto num planetário, onde há apenas a lua e uma estrela, que não existe. Mesmo que descobrisse depois, num artigo de Astronomia, que era tudo mentira. Afinal, que sabem os astrônomos das estrelas? Talvez eu ainda possa contar esta história num desses muitos momentos da vida em que nos falta assunto. Quero dizer, não quando se está conversando e a conversa esfria, digo quando nos falta assunto a nós mesmos, quando se está sozinho no escuro, às três da manhã, e não há mais nada pra pensar.
O telefone está cortado, ninguém irá ligar e dizer: "eu sabia que você estava acordado, eu também estava..." Não, o telefone já não pode inspirar mais esperança que uma lâmpada fluorescente. Logo mais, às quatro horas, o jornaleiro virá de moto e eu ouvirei o som do jornal caindo no chão, e o barulho da moto irá diminuindo, diminuindo, até sumir. E eu finalmente fecharei os olhos, devagar, e pegarei carona com o jornaleiro. E iremos, então, até o infinito.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Morte aos suicidas

A expressão "gostar de sofrer" geralmente é usada de forma depreciativa, como se a pessoa em questão, por fraqueza, tivesse desistido da felicidade, assinando assim seu atestado de burrice. No entanto há pessoas que assinariam de bom grado esse atestado, mas como um atestado de fraqueza ou de orgulho e não de burrice, até porque a burrice, se fosse o caso, permaneceria com ou sem tal assinatura. Aliás, a única coisa que ninguém pode escolher é ser burro, pois isto seria, de saída, uma escolha errada, e para fazer uma escolha errada é preciso ser burro antes mesmo de fazê-la. Portanto, ninguém é burro porque quer, e se isso ajudar a diminuir o preconceito de alguns já me dou por satisfeito.
O que acontece, normalmente, é que se toma pela expressão "gostar de sofrer" a idéia de gostar de ser triste, por exemplo. Mas poderíamos dar muitos outros exemplos: masoquismo, gostar de dar vexame etc., em nenhum dos casos a pessoa gosta de sofrer, pois esta expressão, por si só, é um contra-senso. O fato é que, como (i) cada um tem uma concepção da felicidade, que aliás é algo que por si só não tem sentido, e (ii) o ser humano é um fracasso em matéria de comunicação, de modo que a falta de comunicação me parece ser a causa de todos os males, a concepção de felicidade do outro sempre parece mais burra.
Uma das leis mais ignóbeis, a meu ver, é a que pune a tentativa de suicídio. Pra mim isto só prova a artificialidade desta mesma lei e, com isso, o abismo que há entre o legítimo e o legal, isto é, basicamente, entre o justo da ética e o justo da política. Não espanta que, entre aqueles que fazem as leis, grande parte seja formada por radialistas demagogos e pastores de igreja eleitos democraticamente, em suma: pessoas que, ao invés de manter seus preconceitos limitados pela liberdade de crença e opinião, no nível do direito, querem estipular para todos, no nível do dever, aquilo que só é válido para seu círculo, ainda que estes círculos sejam grandes representantes dos valores de massa. Isto prova ainda que a lei se fundamenta na e se caracteriza pela punição mais do que pelo bem comum. Não fosse assim, daríamos aos suicidas a pena capital e sairiam todos ganhando. Aliás, quer melhor ocasião para a pena capital?
O suicida não é, e não pode ser, na minha opinião, alguém fora de suas capacidades mentais que de repente viu um revólver e resolveu "estourar os miolos", pelo menos não, por assim dizer, o verdadeiro suicida, quer dizer, aquele que mata pelo mesmo motivo que faz os homicidas, estes sim, criminosos: o seu suposto livre-arbítrio, fora disso, tudo o mais será mero acidente, e é ridículo punir alguém por um acidente. Uma tentativa de suicídio, entretanto, não é um acidente, tudo o que temos a fazer é dar ao suicida uma segunda tentativa, de preferência indolor e, no mínimo, uma trégua para o caso de ele não aceitar, já que, com a desistência, ele se redime por isso mesmo de seu suposto crime: é como se o assassino ressuscitasse a vítima e pronto, iam todos passear no parque.
O que quero dizer é que o suicida é uma pessoa tão comum quanto qualquer outra, assim como aquelas que "gostam de sofrer". Aliás, o suicida é aquele cuja felicidade só depende dele, ele é autônomo por excelência, opta pela morte como outros, do alto de sua heteronomia, optam pelo sexo. Mais do que isso, é alguém que escolhe como, quando e onde morrer, além de dar à sua morte e, pelo mesmo ato, à sua vida - tantas vezes medíocre -, a dignidade de um porquê. Muito melhor do que alguém que, um belo dia, tem sua cabeça esmagada por um caminhão.
Voltando aos que "gostam de sofrer", dentre os quais eu sou o primeiro (risos): vivemos hoje uma ditadura da felicidade, é engraçado como qualquer outdoor idiota se importa com a sua felicidade, ainda que seja apenas a felicidade da novela das oito. E como muitos preferem se contentar com esta felicidade a encontrar um mínimo de prazer na tristeza, que será sempre inevitável, vale qualquer coisa pra "ser feliz". Ora, todas as vezes que me senti próximo desta idéia vaga de felicidade, não me senti senão ansioso, inseguro e vulnerável, além do retorno da tristeza se tornar uma ameaça constante, ameaça que, infalivelmente, se realiza, e isto porque eu ainda não conheci a verdadeira felicidade, pois esta se caracteriza, essencialmente, pelo tédio.
De resto, ser feliz é ipso facto largar a felicidade na mão dos outros, e como diria Ibsen: "o homem mais forte é aquele que está mais só". Com efeito, a liberdade é muitas vezes melhor do que a felicidade, pelo menos melhor do que a felicidade da novela das oito. O problema é quando entra em jogo a liberdade da novela das oito, mas aí já é outra história...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Feliz ano velho

Hoje amanheceu muito frio em Curitiba. E no meu rosto surgiram dois grandes vincos embaixo dos olhos, mas não chorei. Quando acordei minha mãe desmanchava o pinheirinho e era como se desmontasse um cenário no qual se passou o natal e o ano novo e agora era inútil. Às vezes tenho a impressão de que, em todo lugar que eu vou, há alguém desmanchando o cenário e saindo de cena, cheio de coisas embaixo do braço, uma sensação de quem se enganou de endereço ou chegou atrasado. Li no jornal que Marcelo Rubens Paiva lançou "A segunda vez que te conheci", espécie de resposta a "O amor acaba" de Paulo Mendes Campos. Deu vontade de ler os dois. Seria bom, em tardes frias como essa, na companhia de Gardel e Jorge Drexler. Ah! se eu tivesse a oportunidade, tocava no ombro de Drummond e dizia que, de minha parte, eu nunca fui brasileiro, nunca ponteei viola, meu ritmo nem sei se já tive, sei que brasileiro não sou, sou argentino, ucraniano, russo, brasileiro é que nunca fui, o samba é uma música estrangeira que eu gostei, mas no momento o tango argentino ou a milonga paraguaia me vão melhor, até bem melhor que o blues. Não, brasileiro é um povo alegre, e eu sou apenas feliz. Mas é verdade, há uma hora em que os bares se fecham, e saímos à toa pelas ruas escuras e há sempre um rio que nos chama lá embaixo. Não sei, não sei se eu sou feliz, mas alegre pode crer que não. É que eu tô sozinho há tanto tempo que eu me esqueci o que é verdade e o que é mentira em volta de mim. Aí parece que eu preciso me desculpar, pedir desculpa a todos por não ser feliz, por não conhecer a verdadeira felicidade. "Nos tornamos piegas quando a tristeza é inevitável", diz o personagem de Paiva, sei como é. E nesta época Curitiba está deserta, mas, sinceramente, acho que nem curitibano eu sou mais. "Ser" alguma coisa não é tão fácil assim, exige a sensação de estar no mundo, e isso é difícil. Talvez o amor seja quando alguém desculpa a outra pessoa por não conhecer a verdadeira felicidade, então, quando a pessoa se sente perdoada, ela se apaixona, quem sabe aí ela tenha a sensação de estar no mundo, só então se poderá "ser" alguma coisa, só depois que alguém te perdoa por existir. Antes disso, existimos clandestinamente, nos permitimos beber, falar besteira, pois ainda não somos nada, porque enquanto ninguém nos perdoar ainda seremos vazios, até que alguém nos escolha, nos olhe bem nos olhos e diga: você "é" importante pra mim, aí você deixa de ser um fantasma e doravante poderá "ser" o que quiser, poderá freqüentar o mundo livremente, quem sabe então se possa ser curitibano e até brasileiro, talvez então se possa, irônico, deslizar.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Amor

Só o amor é real. Amar é como estar preso do lado de fora do espelho, é como estar embaixo do céu, é como o projétil que se submete às leis de Newton: não amar seria como pisar sem os pés. Mas a dialética do amor nos faz odiar: odiamos então. Como se quiséssemos provar ao amor como somos fortes. E gritamos no ouvido do amor que nos deixe e que nos deixe e que não volte, mas então nos pegamos gritando com nosso próprio reflexo. E então jogamos, enfurecidos, o espelho no chão: o amor nos olha, irônico, através dos cacos. E quanto mais odiamos, mais nos sentimos do lado de fora do espelho, mais nos descobrimos reais. E quando uma mão toca a outra e o cérebro diz: uma mão toca a outra – isso é amor. E quando vemos uma mosca doida na teia da aranha e o cérebro diz: mosca doida – pois isso é amor! Por isso amamos com tanta violência, porque amamos pelo mesmo motivo pelo qual o fogo queima, pelo mesmo motivo pelo qual a turbina do avião se põe em movimento. Por isso amamos – com o descontrole de quem ri de uma piada. E quanto mais nos proíbem de rir, mais a risada nos oprime o peito, até que nos pegamos às gargalhadas no meio de uma catedral basílica, e nos olham como se perguntassem: por quê? Mas nós respondemos: não seria por que é proibido? Pois pela mesma razão amamos! Porque o próprio amor, em sua pureza, nos proíbe de amar. Não obstante, prendemos o amor em nossas mãos: e quando abrimos não há nada. Não importa: o importante foi que os ossos da mão se fecharam sobre si mesmos, o importante foi que, na expectativa de ver o que havia na mão, nossos olhos brilharam, e os olhos de todos os que estavam à nossa volta brilharam, mesmo que não houvesse mais nada na mão, e nos chamassem de mentirosos. Pois sim, respondemos, não é mesmo que só há mentira se houver verdade? Por isso a mão vazia denuncia o amor, tanto que deve estar vazia para poder mostrá-lo. É fato: só o amor é real. Um pastor que, de terno e cabelos penteados, prega para a igreja vazia denuncia o amor, pois ele está de olhos fechados e pouco importa que a igreja esteja vazia, porque o amor corria tão feroz nas suas veias que ele sentiu necessidade de amar a Deus, que ele sentiu necessidade de apertar os olhos e gritar, gritar! Para que Deus o ouvisse e aceitasse o seu amor violento. Mas Deus está preso no espelho. E no entanto o pastor submete os seus gritos às leis do som, e o eco nas paredes lhe denuncia o próprio amor, como se de repente as paredes fossem espelhos e os ouvidos fossem olhos. E então ele sorri porque a igreja está cheia, está cheia de homens de terno e cabelos penteados. E com os olhos fechados, porque ele está vendo com os ouvidos, como os morcegos. E assim ele consegue encher a igreja de uma única e mesma essência feita dele mesmo, porque ele encheu a igreja de amor: e pelo mesmo motivo porque as águas enchem os rios, porque só o amor é real.

sábado, 11 de outubro de 2008

Dias úteis

Há quanto tempo tudo deixou de fazer sentido? Há quanto tempo é tão difícil levantar de manhã? Você se senta sobre a cama e olha os pés, o sol entra pela janela, você está só no seu quarto, com todos os seus anos de idade, não importa o que você fez ao longo desses anos: eles passaram. Não importam os prêmios que você ganhou: você está só, e o sol bate em seu corpo. Quem lhe deu os parabéns entrou no carro sorrindo e se esqueceu de você. Você sempre esteve só, e você sabe disso. Outros virão, apertarão a sua mão, mas na manhã seguinte o sol baterá de novo em sua cara. Há quanto tempo tudo perdeu o sentido? E no entanto você anda pelas ruas, e no entanto você entra nas bibliotecas, e sai das bibliotecas, e toma sempre aquele ônibus. E no entanto você entra sozinho nos cinemas, e sai sozinho: e as ruas já estão escuras. E você sabe que na manhã seguinte a luz do sol arderá de novo em seu rosto. E você tapará o rosto com as mãos, porque não haverá nada mais a fazer a não ser tapar o rosto com as mãos.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O silêncio dos intelectuais

Você viu? Você viu como ela esticou o pescoço pro teu lado? Assim, toda delicada, feminina, quis talvez desmaiar nos teus braços, mas pelo jeito olhou pros teus músculos contraídos, tua fraqueza ridícula, e preferiu não cair, pois você a derrubaria no chão, você soltaria seu corpo debilmente, como quem deixa escorrer um fio de baba. Você não foi homem, estremeceu, deixou cair os copos no chão, quebrou tudo na frente dela, sujou a roupa dela, e não foi nem capaz de lhe emprestar o teu casaco, pra que ela não sentisse tanto frio ao toque do vento na blusa molhada. Não, meu caro, você foi fraco, fez tudo errado, há tempos você faz tudo errado, o coração da gente não se pode dar, é um só, e é de vidro também, como os copos que você quebrou. Você lembra? Você lembra quando ela disse: sinto um vazio aqui dentro? Você não podia ter dito: eu também. Não, você devia ter virado o rosto por um momento e fitado o pôr-do-sol, em silêncio, ela ia entender, ela ia entender que você também se sente só, e que tua força maior vem desta solidão de fitar o sol, como quem olha olhos nos olhos de Deus, com vago remorso. Mas você vacilou, você olhou pro chão, e no chão só tinha os copos que você mesmo quebrou e que você olhava com arrependimento, como o assassino olha pra vítima, você se entregou. Ela precisava de você, mas não como cúmplice, ela não queria o teu cadáver, teu esqueleto de vidro, ela só precisava de você pra segurar-lhe o cabelo enquanto ela coloca o brinco, mas ela sabia que você acabaria machucando o pescoço dela, ou banharia a orelha dela em sangue com essas tuas mãos de gorila, você ainda seria capaz de quebrar as taças também com essas mãos e elas nem sangrariam, tão calejadas, tão cheias de veias azuis, porém mortas, como se o sangue estivesse todo no teu rosto na hora em que ela perguntou: em que está pensando? Você pensava nos crimes, no doce que você roubou da criança, lembra? Você deixou a criança chorando na beira da praia, deixou que uma criança fosse maior que você, porque você não entende nada de ética, nem de estética. Quando ela lhe pediu pra acender o cigarro, você lhe queimou os cílios, ainda bem que ela tinha os olhos rasos d'água e apagou a chama num piscar de olhos. Sim, a chama se apagou, você deve parar de ouvir vozes e olhar apenas o que descansa embaixo do sol. Seja um bom animal da próxima vez, se houver próxima vez, não posso lhe dizer mais nada, não me pergunte nada, seja um bom garoto e não derrube os copos, lembre-se: ela não te quer como cúmplice, mas como amigo, um bom amigo, um amigo forte, capaz de viver sem ela, sem mulher alguma se for preciso, mas que não tenha medo de digladiar com Deus ou mesmo de apenas tocar-lhe o ombro, se ela precisar, só se ela precisar.