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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Chicago - Primavera de 2013
"Sempre estive dilacerado entre o meu apetite pelos seres, a vaidade da agitação e o desejo de me tornar igual a esses mares de esquecimento, a esses silêncios desmedidos, que são como o encantamento da morte. Tenho o gosto das vaidades do mundo, dos meus semelhantes, dos rostos, mas, fora do meu tempo, tenho uma regra própria que é o mar e tudo nesse mundo que se lhe assemelha. Ó suavidade das noites, em que todas as estradas oscilam e deslizam por cima dos mastros, e esse silêncio em mim, esse silêncio, afinal, que me liberta de tudo." (Albert Camus, Ao mar)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

AOS ÓCULOS

Só fingem que põem
o mundo ao alcance
dos meus olhos míopes.

Na verdade me exilam
dele com filtrar-lhe
a menor imagem.

José Paulo Paes

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Descartes (2)

"Digo que COGITO ERGO SUM não tem nenhum sentido, porque esta curta palavra SUM não tem sentido algum. Ninguém tem, nem pode ter, a idéia, ou a necessidade, de afirmar: EXISTO, a menos que seja tomada por morta e tenha que protestar contra isso. E ainda assim, diria: Estou vivo. Mas seria suficiente um grito ou o menor movimento. Não: EXISTO nada pode ensinar a ninguém nem responde a qualquer questão inteligível..." (Paul Valéry)


(Descartes, em retrato de Jan Baptist Weenix, onde se lê, a pedido do próprio filósofo: monde est fable, que quer dizer: o mundo é fábula)


"...conceber o pensamento como consciência significa comprometer-se ao menos com a tese de que todo modo de pensamento tem a forma do Eu penso que p." (Lia Levy, que prossegue em nota de rodapé: "Associo-me, pois, oficialmente, à turma dos 'p que p', termo gentilmente cunhado por Bento Prado Neto, segundo reza a lenda, em oposição aos 'odara'...")*

*se alguém entendeu a segunda parte desta piada acadêmica, deixe um comentário explicando e faça um pseudo-intelectual feliz: o que são os odara? E pra fechar, deixo-lhes aqui uma charge:


domingo, 20 de julho de 2008

Descartes

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira

"...nada sou, pois, falando precisamente, senão uma coisa que pensa, isto é, um espírito, um entendimento ou uma razão (...) Eu não sou essa reunião de membros que se chama o corpo humano, não sou um ar tênue e penetrante, disseminado por todos esses membros; não sou um vento, um sopro, um vapor, nem algo que posso fingir e imaginar, posto que supus que tudo isso não era nada..." (Descartes, Meditações)

Gassendi fez a seguinte objeção:

"Dizei-me, eu vos peço, ó alma, ou o que quer que sejais, corrigistes até aqui este pensamento pelo qual vos imaginais ser algo semelhante ao vento ou a qualquer outro corpo desta natureza, espalhado em todas as partes de vosso corpo? Certamente não..."

Descartes respondeu o seguinte:

"Começais por uma figura de retórica bastante agradável que se chama prosopopéia, a me interrogar, não mais como um homem inteiro, mas como uma alma separada do corpo; (...) Dizei-me, portanto, suplico-vos, ó carne, ou quem quer que sejais, e qualquer que seja o nome pelo qual desejais ser chamado, tendes tão pouco comércio com o espírito que não pudestes notar a passagem em que corrigi esta imaginação do vulgo pela qual fingimos que a coisa que pensa é semelhante ao vento ou a algum outro corpo desta espécie?"

E mais adiante...

"o que aqui alegais, ó boníssima carne, não me parece tanto objeções quanto algumas murmurações que não têm necessidade de réplica"

E ainda...

"E não vejo, ó carne, sobre qual argumento vos fundais para assegurar com tanta certeza que um cão discerne e julga da mesma maneira do que nós, a não ser que, vendo que é também composto de carne, vós vos persuadais de que as mesmas coisas que se acham em vós encontram-se também nele"

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Política


Vivia jogado em casa.
Os amigos o abandonaram
quando rompeu com o chefe político.
O jornal governista ridicularizava seus versos,
os versos que ele sabia bons.

Sentia-se diminuído na sua glória
enquanto crescia a dos rivais
que apoiavam a Câmara em exercício.

Entrou a tomar porres
violentos, diários.
E a desleixar os versos.
Se já não tinha discípulos.
Se só os outros poetas eram imitados.

Uma ocasião em que não tinha dinheiro
para tomar o seu conhaque
saiu à toa pelas ruas escuras.
Parou na ponte sobre o rio moroso,
o rio que lá embaixo pouco se importava com ele
e no entanto o chamava
para misteriosos carnavais.

E teve vontade de se atirar
(só vontade).

Depois voltou para casa
livre, sem correntes
muito livre, infinitamente
livre livre livre que nem uma besta
que nem uma coisa.
___
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

oleiro amoroso

As palavras de Alexandre França sobre Rodrigo Madeira definem para mim o próprio ato de fazer poesia "como se aqueles versos fossem as últimas palavras de um doente terminal". Afinal, Madeira não é daqueles que escrevem para ficar, meu amor, como ele mesmo diz: "escrevo para ir embora":
de fazer-te estátua,
entre bruma e arpejos
quebrei-te com gosto,
com presta destreza.

de atirar-te aos cacos
no charco, entre juras,
beijos de dois gumes,
sem dó atirei-me.

de colher os cacos
para rejuntá-los
com a lama mesma,

imunda, te amei,
com gosto e destreza
sem dó, como nunca
Rodrigo Madeira