terça-feira, 9 de junho de 2009

Citação

Duvidar não significa descrer. Quem descrê já não duvida. Duvidar significa crer em coisas distintas e incompatíveis, ao mesmo tempo. O Ceticismo apareceu na Grécia pelo século III A. C., quando a cultura grega estava saturada de experiência criadora, possibilitando opções múltiplas e divergentes. Em essência, a disposição cética revela-se como forma refinada de tentação intelectual para gozar a simultaneidade dos opostos. Cético é quem experimenta a inefável fruição do possível, ora crendo que sim, ora crendo que não... O cético disfarça seu embaraço opcional, pela superior destreza, pela fina elegância com que se mostra capaz de seduzir ouvintes ou leitores ao sustentar os argumentos mais contraditórios sobre o mesmo assunto. (Gilberto de Mello Kujawski, Descartes existencial)

domingo, 7 de junho de 2009

Ao mar*

*do diário de Albert Camus, escrito em viagem de volta dos EUA:

Como é longa essa viagem de volta. Os fins de tarde sobre o mar e essa passagem do sol poente à noite são os únicos momentos em que sinto o coração um pouco descontraído. Terei sempre amado o mar. Ele terá sempre apaziguado tudo dentro de mim.
Terrível mediocridade desse meio. Até agora, não me sujeitei uma única vez à mediocridade que podia me envolver. Até agora. Mas aqui, essa intimidade vai longe demais. E em todos, ao mesmo tempo, esse algo que poderia ir adiante, se apenas...
Dois seres jovens e belos começaram um idílio neste navio, e logo uma espécie de círculo mau fechou-se à sua volta. Esses começos de amor! Eu os amo e aprovo do fundo do coração - até mesmo com uma espécie de gratidão pelos que preservam, neste convés, no meio do Atlântico reluzente de sol, a meio caminho de continentes loucos, as verdades da juventude e do amor. Mas por que não chamar pelo nome também essa inveja que sinto no coração e o desejo tumultuado que se apodera de mim no sentido de redescobrir o coração impaciente que eu tinha aos 20 anos. Mas conheço o remédio, vou olhar para o mar durante muito tempo.
Tristeza por sentir-me ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Portanto, 25 anos para fazer a minha obra e encontrar o que procuro. Depois, a velhice e a morte. Sei qual é o mais importante para mim. E encontro, ainda, o meio de ceder às pequenas tentações, de perder tempo em conversas vãs ou passeios estéreis. Dominei duas ou três coisas em mim. Mas como estou longe dessa superioridade de que tanto necessito.
Maravilhosa noite sobre o Atlântico. Essa hora que vai do sol desaparecido à lua apenas nascente, do oeste ainda luminoso ao leste já escuro. Sim, amei muito o mar - essa imensidão calma - esses sulcos recobertos - essas estradas líquidas. Pela primeira vez, um horizonte à altura de uma respiração de homem, um espaço tão grande quanto sua audácia. Sempre estive dilacerado entre o meu apetite pelos seres, a vaidade da agitação e o desejo de me tornar igual a esses mares de esquecimento, a esses silêncios desmedidos, que são como o encantamento da morte. Tenho o gosto das vaidades do mundo, dos meus semelhantes, dos rostos, mas, fora do meu tempo, tenho uma regra própria que é o mar e tudo nesse mundo que se lhe assemelha. Ó suavidade das noites, em que todas as estradas oscilam e deslizam por cima dos mastros, e esse silêncio em mim, esse silêncio, afinal, que me liberta de tudo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Contra-senso

Uma das tripulantes que não chegou a embarcar no avião que caiu no oceano disse que se salvou graças à mão de Deus, o engraçado é que nessas horas ninguém se lembra que também foi a "mão de Deus" que derrubou o avião no oceano...

domingo, 31 de maio de 2009

A igreja dos ateus


para tullio stefano

Se Machado de Assis, há mais de um século, se permitiu criar a Igreja do Diabo, já era hora de criar uma igreja dos ateus, já que são tantos e, mais cedo ou mais tarde, vão acabar se organizando e dominando o mundo.
Bom, uma igreja não é uma igreja se não distinguir, desde já, o certo e o errado, o bem e o mal. Pois bem, o mal está no agnosticismo, que dissemina a falta de fé entre os ateus, levando-os a um quadro de niilismo profundo, chegando às vezes a evoluir para o suicídio. Assim, já que eu me auto-elegi para fundar esta igreja, tratei de escolher um representante do ateísmo no mundo animal: tenho aqui uma tartaruga, já bem velhinha, apontei pra ela e disse “tu és a pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do agnosticismo não prevalecerão contra ela”. Como ela não disse nem que sim nem que não, assim que ela morra, farei do seu casco, oco como a vida, a pedra angular de nossa igreja.
Outra lição que tiramos dos nossos colegas cristãos é a de dividir o trabalho em ministérios ou pastorais, para dar a impressão de engajamento e seriedade. Logo, em homenagem a ateus famosos, resolvi que os ministérios seriam, pra começar, três: o Ministério Dráuzio Varella, de cura e libertação; o Ministério Oscar Niemeyer, das causas sociais; e o Ministério Caetano Veloso, de louvor e adoração. Assim, com um representante de cada grande área, biológicas, exatas e humanas, demasiado humanas, será mais fácil dominar o mundo.
Os livros sagrados também podem começar com três: na base do velho testamento ficará “Assim falou Zaratustra” do profeta Friedrich Nietzsche; no novo testamento, Simone de Beauvoir emplacará com “Todos os homens são mortais”, onde explica que as mulheres, sim, é que são imortais; e o catecismo ficará por conta de Michel Onfray, com seu “Tratado de ateologia”. Nos próximos concílios, poderá ser negociada a entrada de Russel, com “No que acredito”, censurado como apócrifo devido à positividade subversiva do título. No índex entrará toda Patrística e Escolástica, além do Pe. Vieira.
Uma última coisa a ser considerada, última na ordem mas não na importância, é o dízimo que, já vou avisando, será chamado trízimo ou quadrízimo, já que a maioria dos ateus é oriunda de classes sociais mais altas (e, supostamente, mais esclarecidas). Enfim, como diria o profeta Karl Marx: ateus do mundo inteiro, uni-vos! E como diria Paulo de Toledo:

terça-feira, 19 de maio de 2009

tem piedade, satã, desta longa miséria!

O verso acima, de Charles Baudelaire, digno dos grafites nos muros e paredões de Curitiba, serve de epígrafe ao poema Balada da Cruz Machado, de Rodrigo Madeira, também publicado sob o pseudônimo Renata Amador, na edição 15 do Escritoras Suicidas. Adaptado para o audiovisual por Terence Keller, com direito a tomada da catedral deformada através do tubo do ligeirinho, o poema virou filme, como narra Rafael Urban em sua matéria para a Folha de Londrina de 26 de junho de 2008. Quase dois anos depois de idealizado e pouco mais de um ano após as filmagens, o curta estréia nesta sexta-feira, 22 de maio, às 20 horas, na Cinemateca, não muito longe, aliás, do próprio cenário, a rua Cruz Machado, aquela que termina, ao desenlace da esquina, nos pés de uma catedral.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DIALÉTICA



É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

Vinícius de Moraes

sábado, 2 de maio de 2009

Nazismo em Curitiba

Ao ler esta reportagem, não sem um certo susto e a boa e velha náusea, fui atrás dos referidos sites de orientação nazista, quer dizer, de "orgulho branco", que fazem apologia ao nazismo e coisas do tipo. Como, no caso, os assassinados eram nazistas, o comentário de um tal de Mr. Blonde em um destes sites diz: "Isto é um assassinio a um casal nacionalista, cujo o único 'crime' foi a sua ideologia politica...", e, não satisfeito em pôr crime entre aspas, conclui: "Que raiva...". Acontece que foi praticado, ao que tudo indica, em nome de outra ideologia política, na verdade outra corrente da mesma ideologia. As vítimas, apesar de serem nazistas, eram mais ou menos contra a violência (o que - parafraseando a reportagem - deporia contra o grupo e complicaria a aceitação do movimento pela sociedade), por isso foram exterminadas, provavelmente pelos próprios nazistas, que pra mim não passam de uma única grande corrente. Este fato parece também não ter sido observado por outro destes sites apologistas (atenção para a suástica), que se contenta em reputar o motivo como 'desconocido' e citar 'el delegado' (a notícia é brasileira, mas o blog é argentino): “Aún no sabemos si ellos fueron muertos por una persona que estaba dentro del coche con ellos o si fueron abordados en la carretera por el asesino”, além de aventar - faz tempo que estou querendo usar esta palavra - a hipótese de latrocínio. No terceiro dos 3 sites em questão, sob o lema "White Pride World Wide", não consegui achar sobre o assunto, mas como se trata de nazismo escarrado, pude achar coisas muito mais repugnantes, como esta ironia no título de um dos links: Mamãe, eu sou contra o Nazismo!!, e coisas pitorescas como a referência à afirmação de Lula de que 'brancos de olhos azuis' seriam responsáveis pela crise financeira ou algo assim: o tipo de afirmação sem pensar que joga água no moinho de oportunistas, e até uma espécie de fundamentação bíblica para a anti-miscigenação, o que não espanta nem um pouco, já que a Bíblia é cheia destes disparates e os nazistas são plenamente capazes de religiosidade, como se vê pela sua tendência ao culto de Odin, "o deus dos nórdicos", e por sua crença na vida após a morte em Valhalla, "aonde vivem os fortes". Mas isto não vem ao caso, o fanatismo político destes seres humanos (putz!) já vai muito mais longe do que este seu inocente devaneio religioso, já estou fugindo do tema, como diria o Mr. Blonde: Que raiva... Expressão que, aliás, vinda de entusiastas do crime de ódio (e sem aspas, por favor!), não poderia ser mais cínica.