sábado, 15 de março de 2008

O Enigma de Carlos

p/ Antonio Cicero

Sonhei que estava preocupado
E que no meu sonho havia
Algo de errado
Quando acordei
Me aliviei
Mas logo fiquei perturbado:
Não sabia do que
Eu tinha me aliviado

Otávio, em defesa da rima pobre

domingo, 9 de março de 2008

O deserto de Babel

Dizem que a palavra não existe, mas antes que a própria existência é uma palavra, como se fosse possível cavar buracos em abismos, como se fosse preciso uma lanterna pra ver o sol. Não, não vale a pena crer nesta triste verdade, nenhuma verdade vale à pena. Cada vez mais sou tragado por esse absurdo: já não tenho mãos que escrevem, nem estas têm carne, nem a carne é viva - é tudo palavra. Percebo isso como se meu coração secasse, como se a notícia fatal fosse dada. Olho em volta e as palavras me furam os olhos, me queixo em poemas como se vomitasse a bílis, pedaços de mim no chão. Até mesmo Deus veio até mim dizendo Aqui estou, e tudo que fiz foi anotar. E as palavras de Deus engoliam Deus, e quanto mais Ele falava, mais a boca ia envolvendo nariz e queixo, até que Deus se fez do avesso, tornou-se todo lábios de Maiakovski e desapareceu como o Gato de Alice. Sempre chega um dia, pode ser um domingo, em que se fica tão sozinho que não se tem mais que o próprio nome, um nome que nos trai com consoantes em vez de ossos. Já não adianta nos apresentar a ninguém: João, Maria. Maria, João. Não. Nem dizer eis-me aqui, nem. A palavra chega antes da gente, avisando o outro do nosso não-ser, estapeia-lhe o rosto para pensar que somos maus, aperta-lhe a carne para que pense que temos taras, esquenta-lhe os lábios a apregoar que o sangue nos sobe e nos arranca a roupa como se o vento fosse assim tão forte. E a palavra desce do céu, e sentimos vergonha porque estamos nus. Sim, porque no princípio era o verbo. Desde então o homem, mesmo que esse homem seja eu, anda pelo mundo atrás da não-palavra. Em busca do silêncio, silêncio que tem fim com o movimento da Terra, silêncio que se extingue, não ao brotar da flor, mas à simples idéia de que uma flor brote. Mas nunca se chega ao silêncio que subjaz: o silêncio, não dos astros que giram no espaço, mas antes do astro que nem foi pensado, até porque não existe. Ou vice-versa: tanto faz. Como se. Como se. Como se morrer fosse não ter nascido e essas coisas que diz toda mulher, quando está triste. Como. Como. A personagem de Woody Allen que se tornava superconsciente do próprio corpo. Macabéa sem saber o que tem dentro do seu nome, eu também não sei o que há dentro do meu nome, como aquela vez em que voltava pra casa por uma rua tão escura, mas tão escura que tive medo de que meu endereço não estivesse lá ou, se estivesse, que eu abrisse a porta e nada encontrasse de meu, e no quarto da minha mãe não fosse ela que dormisse, mas uma barata, como se outra família ali se alojasse, e falasse outra língua. Sartre tinha razão: um trem pode descarrilar. Mas eu era pequeno ainda, tinha medo do escuro. Hoje, antes que apaguem a luz, fecho os olhos, sabe como é: mudamos as teses para não mudarmos os fatos. E ainda assinamos embaixo. Tenho pena daquele velho que, graças ao novo ministro, aprendeu a escrever o nome, e sorria pra câmera porque conheceu a morte antes da morte, como quem conhece o sexo. Todo soberbo o velhote. Há quem se desculpe por não ter o que dizer, por faltar-lhe as palavras. Na verdade estamos sempre nos desculpando por não ter o que dizer. Pois quem teria, de fato, algo a dizer? Mas dizem também que o mundo não é assim tão mau, que é apenas redondo, entende? Mas ainda tenho dúvidas. Mas. Mas. Guardo cá meu ceticismo, acredito que as palavras são como o arco-íris: nos enganam dizendo a verdade. Que a palavra quebra as pernas ao inefável e corta-lhe a cabeça para que caiba em seu caixão. Que. Que. Que a palavra tira o leite e o mel tanto da pedra como da vaca morta. Porque Deus está em toda parte. Oremos, diz o padre, e todos se calam em vez de orar, porque assim se vaia Roma, e quem beber deste cale-se estará bebendo a própria consumação. Calamos. Porque. Porque. Porque a cada palavra se morre um pouco, deixa-se de ser o que se é e passa-se a ser o que se diz. E tudo pode ser usado contra nós. E será usado contra nós. E está sendo, mas não agora: agora faremos um minuto de silêncio.

sábado, 8 de março de 2008

Poléxia no Jokers

E não estavam sós, mas antes muito bem acompanhados pela banda paulista Ludov, nesta sexta, que está divulgando o lançamento de Disco Paralelo e que se apresentou logo depois da banda curitibana, esta que, por sua vez, enquando não é produzida pelo John, nos brinda com este CD ao vivo, pela Grande Garagem que Grava:
Tudo começou com o Poléxia cantando Aos Garotos de Aluguel: "Ela me chama quando quer, eu penso se vou lá. Me envolve num ardil qualquer, querendo me enganar. Essa situação não quer chegar a um final. Eu sou garoto de aluguel mas não vão me comprar. Eu vou te dar o teu prazer. Mas com amor é mais caro. Com amor é mais caro. O meu amor é o mais caro. Me diz quanto você pode pagar". Talvez por isso, no final, o Ludov lembrou "sei que há contas a pagar" e, pouco depois, os instrumentos cessavam para a voz de Vanessa Krongold soar em uníssono com todos: "quando eu te quiser, quando eu te quiser, quando eu te quiser, esteja em casa, esteja na sala de estar", sem falar que a Vanessa é linda: "parecia uma princesa".

quarta-feira, 5 de março de 2008

Registro Geral

"as crianças correm, para onde?" Adriana Calcanhotto

Há dias em que acordamos assim, por mais cruéis que sejamos, há dias em que tomamos ares humanistas, de querer amar a todos, simplesmente por compreendê-los. Amar talvez seja justamente isso: desistir. O exato momento em que o entender dá lugar ao compreender e, por isso, nos arrogamos além do verdadeiro e do falso, munidos apenas de uma simpatia irracional. Vamos amando a torto e a direito, sem pedir licença, àquela senhora de olhos grandes que nos olha, ao gari que nos é hostil, ao distraído que desvia de nós. Chegamos quase ao ponto de puxar conversa e, se é o outro que a puxa, deixamos os olhos brilhar e destilamos o mais puro fingimento para ouvir àquelas questões de ordem prática, tão pautadas por horários e nomes, tão cheias de seriedade. Na melhor das hipóteses, ouvimos um monólogo e tanto, caso contrário, é preciso lançar mão da nossa gama de conhecimentos gerais e tentar a sorte. Desastradamente. Deus sabe como é difícil digladiar em conhecimentos gerais com essa gente. Até que o ônibus venha, até que o pavil da fila do banco queime até o final, até que a nossa senha, a nossa!, seja anunciada em alto e bom som. Até mais. Até. Até. Saímos sempre mais cultos destas conversas improvisadas. Mesmo aqueles que não falam, que andam e andam e passam, como se a dança fosse ensaiada, mesmo estes têm no olhar uma despedida, um ar triste de quem se perdeu: com licença, poderia dizer de onde viemos e para onde vamos? Mas não, trazem todos, apertado na mão, o endereço amassado. No bolso de trás, escapando da calça frouxa que deixa entrever o início do fim de corpos cansados que se abaixam, a identidade plastificada, cheia de orelhas, grita surdo quem somos nós. E somos todos muito feios, obrigados a tirar essas fotos que querem de nós. Nada mais cínico que o fotógrafo a nos pedir pra sorrir, que o taxista a nos contar a mais velha das piadas e a exigir nosso riso com voz súplice de humorista. Como uma professora de biologia que conheci, cuja anedota máxima consistia em segurar nas mãos em riste, qual troféu, o RG, e proclamar o fim de sua crise de identidade. Sim, estamos todos no bolso de trás. Apertados em calças jeans, sempre sujeitos às mãos do burocrata: colados às nádegas de cada um destes pequeninos.

garrinchado por Otávio

Elogio da Dialética




O verdadeiro amante não ama:
discute sobre o amor.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

oleiro amoroso

As palavras de Alexandre França sobre Rodrigo Madeira definem para mim o próprio ato de fazer poesia "como se aqueles versos fossem as últimas palavras de um doente terminal". Afinal, Madeira não é daqueles que escrevem para ficar, meu amor, como ele mesmo diz: "escrevo para ir embora":
de fazer-te estátua,
entre bruma e arpejos
quebrei-te com gosto,
com presta destreza.

de atirar-te aos cacos
no charco, entre juras,
beijos de dois gumes,
sem dó atirei-me.

de colher os cacos
para rejuntá-los
com a lama mesma,

imunda, te amei,
com gosto e destreza
sem dó, como nunca
Rodrigo Madeira

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

imprensa vs crença: liberdade e litigância

O assunto é sério, e a palavra é: litigância, isto é, pretensão. Comprei a Folha desta quarta pensando na renúncia de Fidel, e descobri que a Folha de São Paulo mexeu no formigueiro da Igreja Universal do Reino de Deus, e agora está sendo atacada pelas formigas. Como o jornal é de circulação nacional, o pessoal apareceu de todo canto, todos ofendidos pelos mesmos motivos. Mas que motivos? Um negócio de dízimo em Paraísos Fiscais (bem que avisaram que o Paraíso existia!), e quem sofre é a repórter Elvira Lobato que foi quem cutucou, e agora tem que usar da física quântica para estar em vários lugares ao mesmo tempo, respondendo a uns aqui, outros ali, que são todos os mesmos, tristemente os mesmos (a nível de rebanho, diga-se de passagem). 56 ações judiciais por, se não me engano, danos morais, apareceram e, as que foram julgadas, como era de se esperar, perderam. E vão continuar perdendo, é claro. Mas o que interessa não é ganhar a causa em cima do jornal, é espernear, gritar, pro jornal ficar quieto, tipo a mãe que diz pro filho: tá bom, eu compro. E, já que gostam tanto da palavra fé, isso se chama má-fé, litigância de má-fé, que quer dizer, segundo a lei 5.869/1973 do Código Civil, gritar, espernear, não com essas palavras é claro. Enfim, os fiéis não estão preocupados com verdade dos fatos e tal, vão logo alegando danos morais. Só é considerado o lado emocional da coisa, o bom da religião é isso, pode tudo. O 2º item da nota divulgada pela Universal é "o dízimo é um aspecto da liberdade de crença consagrada pela Constituição Federal". Sim, o dízimo. Senão também pra quê que tinha crença, né? E livre! Sim, "livre livre livre que nem uma besta que nem uma coisa", diria Drummond, num poema entitulado, ironicamente, "Política". Tudo bem, livre, mas tão livre quanto a imprensa, ué. Por quê que o dele tem que ser maior que o meu, hein mãe? Porque ele é maior, oras! E se tratando da Universal, é um marmanjo, um homenzarrão, um troglodita, com mais de 5 milhões de cabeças em 170 países, segundo os próprios. Eles só não gostam que se lhes chame de "seita, bando ou facção", sabe como é, danos morais e tal. Mas imaginem se os ateus fossem na justiça cada vez que um rádio ou um folheto religioso dissesse que eles são seres imorais, possuídos por entidades malígnas, herdeiros do inferno? Ainda bem que não dá pra considerar estes elogios danos morais. É que todo religioso é muito sensível, frágil, vítima de constante preconceito. E para sorte de todos, os políticos também não são tão sensíveis a ponto de considerar um entortar de nariz um dano moral, caso contrário, haja litigância! O ministro carlos Ayres Britto sintetiza bem tudo isso quando afirma, segundo a reportagem de Silvana de Freitas, "que um dos papéis da imprensa é dar visibilidade ao poder. 'Não só o poder público, mas também o poder econômico, o religioso'". Ou seja, poder é poder, visibilidade é visibilidade, ninguém está tirando os fiéis à força da igreja, só está mostrando aonde o dinheiro vai, os fiéis deveriam se revoltar contra a própria igreja e não acobertá-la, porém, muito porém - e neste momento uma lágrima escorre em meu rosto - fiel é fiel, né.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

alienação não é um cachimbo: sobre o sexo

Bom, se é difícil dizer o que seja alienação, pelo menos podemos dizer o que não é, talvez. O discurso sociológico, como qualquer outro, pode enveredar por generalizações. Portanto, alienação não é um cachimbo, eu acho. Enquanto não entendemos Marx, Gramsci e Adorno, podemos nos contentar com a coleção Primeiros Passos, e um pouco de literatura. Vamos ao que interessa: sexo.
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"Trata-se do mesmo processo de alienação, agora atingindo o domínio das fantasias. A busca do prazer me constrói duplamente, enquanto o meu prazer me torna mais parecido comigo mesmo e, depois, porque a busca me impele ao outro, promove o encontro a cumplicidade. Quando as nossas fantasias são transformadas em mercadoria, elas nos destroem duplamente: inventam um outro homem dentro de mim, porque recriam o meu desejo à minha revelia, um outro sexo infiltrado em meus instintos e, além disso, me condenam a viver em busca obcecada de um prazer que não existe, não tenho e não terei porque é, já de partida, ilusão". (...) Condenado a realizar o animal que carrega em si pelo modo social de ser, o homem se encontra, enquanto ser biológico, quando nega o animal que é. Ao fazer do animal, no homem, um produto à venda no mercado, o capital rouba do sexo o gesto humano e entrega o animal à sua própria sorte, o exacerba ao mesmo tempo que retira dele os meios de realização, como um monstro sem face". (Wanderley Codo)
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"A ordem de beber Coca-Cola não corresponde de um certo modo a essa ordem de fazer amor, faça amor, faça amor! Cheguei um dia a ter uma miragem quando em lugar da garrafinha escorrendo água no anúncio, vi um fálus no fundo vermelho. Em ereção, espumejando no céu de fogo - horror, horror, nunca vi nenhum fálus, mas a gente não acaba mesmo fazendo associações desse tipo?... (...) Senhor Diretor: antes e acima de tudo, quero me apresentar, professora aposentada que sou. Paulista. Virgem. Fechou os olhos, virgem, virgem verdadeira, não é para escrever mas não seria um dado importante?... (...) E se por acaso o certo for isso mesmo que está aí? Esse gozo, essa alegria úmida nos corpos. Nas palavras. Esse arfar espumejante como o rio daquelas meninas, aquelas minhas alunas que eram como um rio... (...) E se o normal for o sexo contente da moça suspirando aí nessa poltrona - pois não seria para isso mesmo que foi feito? Virgem, Senhor Diretor. Que sei eu desse desejo que ferve desde a Bíblia, todos conhecendo e gerando e conhecendo e gerando..." (do conto Senhor Diretor de Lygia Fagundes Telles)
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E pra fechar, vale a leitura do conto O amor estampa as revistas, de Assionara Souza, publicado no livro Cecília não é um cachimbo, pela 7letras, de onde tirei inspiração para o título deste post.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Com a palavra: Wiki...ops, Desciclopédia.

Depois de estudar as provas ontológicas da existência de Deus feitas por Santo Anselmo e Descartes, ouvir comentários a nível de (jornalista, ops) aluno de filosofia sobre a prova de São Tomás de Aquino, esvaziar as estantes de religião dos principais sebos da cidade, consultar com psicólogo, ler o Anticristo, assistir a (um, ops) dois cultos evangélicos, elaborar piadas de mal gosto sobre os mesmos cultos, comprar coletâneas sobre Deus e Religião antes de Cristo, freqüentar seminário, postar apologia do ateísmo no blogspot, e bater uma punheta ao som de Coltrane que também ninguém é de ferro, finalmente o super-herói pseudotavio, vulgo 'cão', encontrou uma fonte confiável para extrair uma síntese da essência a priori do que é ser (agnóstico, ops) ateu hoje.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Citação

Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível. (Graciliano Ramos, Angústia)

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ps: em fevereiro tem carnaval.