domingo, 14 de outubro de 2007

Freud está solto

Vejamos o que esta simpática, porém hostil representante das Ciências humanas, conhecida como "Psicologia Aplicada", e sua mais nova variante mercantil de vulgo "auto-ajuda", têm a dizer a respeito de nós, professores:

"Infelizmente, o que em muitas ocasiões determina que um certo jovem aspire a ser "professor", mais do que sua primitiva vocação magisterial, é sua íntima necessidade de compensar um sentimento de inferioridade, que lhe dificultou contatos afetivo-sociais normais com os grupos em que se achava incluído. Essa pessoa então resolve ser, como vulgarmente se diz, um "sabichão" e se mete a estudar esta ou aquela matéria com a intenção premeditada de mostrar que tem "crânio", já que não tem "tato"; que é um quase gênio intelectual, já que lhe faltou o gênio natural da simpatia. E as conseqüências são nefastas pois quanto mais sabe, menos sabe transmitir e mais propende a exibir o que sabe, para assim satisfazer a necessidade de afirmação e de prestígio". (MYRA Y LOPEZ, Emilio. As vocações e como descobri-las)

Foucault, nos salve! Socorro, Deleuze!

domingo, 7 de outubro de 2007

Explicação do poema

Deus é um grande poema, imenso, pairando sobre o mundo, repousa sua métrica no mar, e depois a transgride em novos testamentos. Há, de fato, um grande poema que vem nos acolher quando abrimos o livro da vida, pois nesta rua, nesta rua mora um anjo, e o anjo se chama Solidão, o anjo da eterna guarda, sem nenhum sexo que goze a vaidade de opor-se a outro apenas para ser sexo, inteiro e hétero. A solidão é a grande rima, a grande foto de palavras que é Deus. Se a minha solidão me faz bem é porque quebro a grande bússola social, e devo pagar o prejuízo, pois o que é bom para mim pode ir contra o grande Bom, porque a bússola nunca erra. Mas dizer que a solidão é boa seria cair na histeria inocente dos que nunca leram Poema, o grande. Mas se a solidão não é boa, má não é, ainda que haja demônios batizados com o nome do Anjo, em homenagem ao casamento entre Céu e Inferno. Um fim em si mesmo: seria isso a solidão, mas não é também, não em si, pois o é para mim, apenas. E para os poucos leitores da Epopéia do mundo, em que Deus surge sob a pena dos poetas. O poeta é o monge por excelência e vice-versa, o mundo deve, pois, ficar de fora de nosso jejum, pois não sabemos o que jejuamos, que se soubermos o poema vira prosa e Deus fica arrogante, dizendo que é Deus sabendo que é, entregando a nós a Sua cruz e nos abandonando à folha em branco. A única angústia consiste em não escrever, em rasgar uma folha vã. Porém Deus nunca foi arrogante, nem mesmo quando nos levou pela mão ao Inferno, recolhendo-se aos Seus, cujos dentes não rangiam de bruxismo como os nossos. Mas nem por isso Deus deixou de ser Deus, porque ovelhas nunca foram carneiros e quem avisa Amigo é. Aquele que é, é o único que existe, e o que existe não pode ser mau. Todo poema nasce feito. Talvez esta solidão natural e primitiva, da qual outros melhor falaram, mas que é mais parecida com a solidão sem nome do anjo que morreu, ou melhor, virou lápide. E a lápide só é só para si. Pois a sociedade está fora dela. Então quando o céu se abrir, o sertão virar mar e os extremos se tocarem, a pedra, que um dia foi lápide e outrora anjo, a pedra não terá medo de ser pedra, mesmo que um dia seja areia, porque sempre será anjo, como os orientais acreditam. Cada vez que tomamos vinho sozinhos, Deus espirra o seu sangue em nossos olhos, despedindo-se nós para sempre, porque o Apocalipse passou, e não passou de um eclipse ou quem sabe uma vertigem, mas acabou, como toda festa. E é preciso limpar tudo e curar a ressaca, vestir nossas calças jeans, e entender a justiça de Deus, entendê-la de coração, pois na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri. E o Outro nos quer nus, num divã, mas nunca sós, pois tudo que é divino é também coletivo, por isso o anjo deu no que deu. Em algum lugar do futuro, Deus venceu o mal, mas o anjo ainda soca o nosso peito. E dizem que é o Diabo, ou então que somos humanos, mas somos todos palavras de um único poema, e rimamos em 'ão' cada vez que doemos. Seremos por nós mesmos julgados neste Dia, mas o crime será o mesmo. E o chamaremos o grande Crime, o único doloso em verdade. Pois Deus deixará que a arrogância caiba a nós somente, e muito antes de Pôncio Pilatos, terá lavado as mãos com que rasgará nossos poemas eróticos e os queimará junto com as cartas de suicídio. Nem palavras nem idéias, restará a Coisa, que é o poema que não se escreveu e a solidão antes de ser sentida. E por ser coisa será a pedra, a grande pedra, onde se esconde quem roubou, quem roubou meu coração.

PS: que diferença faz se escrevo mal? Um dia o sol engolirá a terra.

sábado, 29 de setembro de 2007

Dejavu

"A vida dói(...)
como um galo no Ártico"


Sim, estamos sozinhos
Apesar de ter amigos
Estamos sós
Como quem acaba de nascer
Como o cantor de jazz
Como o planeta Terra
Tão sós
Quanto aqueles que encontraram Deus
Como quem dá o lugar no ônibus
Como o pastor triste que prega
Como os carros que buzinam
E a estátua viva que se retira
Sozinhos
Como a luz do poste se acende
E o funcionário sério boceja
Como o eletricista de uniforme
E os namorados que se abraçam
Sim, sozinhos
Como o cão comido de sarna
Como um crucifixo na biblioteca
Como o homem que conta piadas
Como quem prepara uma surpresa
***
Ah! tão sozinhos somos
Como uma tv que ficou sem som
Como o padre na sacristia
Como a secretária que sorri
E que fica mais bela se triste
Como uma cadeira de palha
E o homem de paletó que olha as horas
Sós, como quem gabarita uma prova
Como mulheres dentro das lojas
Como os que encontraram Jesus
E foram salvos do fogo do Inferno
Como a informante da telemensagem
Como o entregador de pizza
E a mãe cujos filhos todos cresceram
Sozinhos como quem faz aniversário
Como quem faz um gol
Como folga em dia útil
Como quem faz um poema


Otávio

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sprite tem uma coisa pra te dizer:

"O modo como uma moça aceita e executa o seu date obrigatório, o tom da voz ao telefone e na situação mais familiar, a escolha das palavras na conversação, e toda a vida íntima ordenada segundo os conceitos da psicanálise vulgarizada, documenta a tentativa de fazer de si um aparelho adaptado ao sucesso, correspondendo, até nos movimentos instintivos, ao modelo oferecido pela indústria cultural".

(Adorno e Horkheimer - O iluminismo como mistificação das massas)

domingo, 23 de setembro de 2007

sábado, 22 de setembro de 2007

sobre isso aqui do lado e a cidade em volta

vi os marcadores no blog do antonio cicero e fiquei com inveja, e daí?
Bem que essa poderia ser uma comunidade no orkut.
Mas, mudando de antonio cicero para Cristóvão Tezza, aqui vai um "você sabia que"
Segundo minha irmã, Curitiba é uma das cidades com maiores estatísticas de depressão entre os jovens, e diz-que isso tem a ver com o temperamento do curitibano, o mesmo daquelas piadas tipo: O que o curitibano faz quando pega a mulher com outro? Nada, porque ele não fala com estranhos. E onde que o Tezza entra nisso tudo? Há uma crônica dele que questiona: "Quem é esse que sem mais nem menos lhe pede informação na rua? Não é daqui, senão ia sozinho." Vale ler lá, fala do dalton, dos invasores catarinas e nordestinos e sobretudo da nossa ARROGÂNCIA, camaradas.

domingo, 16 de setembro de 2007

A importância de sermos Dorian Gray

"Não gosto tanto de mim a ponto de gostar das coisas que gosto"
(Clarice)
Tenho algo a dizer, se não estiver com pressa: o orkut é um site de relacionamento, não é? De relacionamento consigo mesmo. Abrimos para ver a NOSSA foto ali do lado, para atualizar o NOSSO perfil, etc., como diria o Chico, "uma penca de documentos pra finalmente eu me identificar". Se der tempo, a gente responde um recadinho ali, escreve outro acolá, parabeniza os aniversariantes, e depois voltamos a ver a NOSSA cara estampada no perfil. Fotos cheias de sorrisos, denunciando a mais pura e verdadeira felicidade dessas doces criaturas virtuais, que falam num tatibitate próprio e que têm personalidade, basta olhar as suas comunidades, incisivas e categóricas, e daí? Vai encarar? Pega eu, maluco. Você não tem orkut, não tem alma. Minha alma é azulzinha (salve, Djavan), e se divide em gostos musicais, livros lidos, filmes etc. Religião: INTERNAUTA. Sim, parabéns para nós, nós temos alma, nós somos felizes de verdade, mesmo quando confessamos nossa tristeza. Mesmo que sejamos sozinhos. Orkut, orkut meu, existe alguém com o perfil mais bonitinho do que o meu? Nós somos uns FOFOS. Somos enfim imortais. Por mais que o corpo padeça e que um dia morramos, permaneceremos pelos séculos amém, enquanto houver world wide web. Expressamos toda nossa liberdade de comunicação, toda nossa democracia, nossa virilidade, nossa popularidade, nossa intelectualidade e, o que é melhor, falamos em inglês, vai um scrap de queijo aí?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

domingo, 2 de setembro de 2007

Deus-lobo é encontrado vivo

"Nunca diga: isto é natural" - Bertold Brecht


O ateísmo não só é algo natural, em minha opinião, como talvez uma das coisas mais naturais do ser-humano, ao contrário do que reza a tradição que, como Montaigne e Pascal, afirma: ateísmo é uma concepção monstruosa e anti-natural. Monstruosa pode até ser, pois lança o mundo ao seu relativismo intrínseco, ao seu pode-tudo. Por isso Voltaire afirma (no dicionário filosófico) que, do ponto de vista político, o ateísmo é inviável. E Dürkheim (segundo Rubem Alves em "O que é religião") que a religião é a base da sociedade. Como se o ateu fosse necessariamente mau, como se a idéia de bem só existisse na idéia de Deus.
Monstruoso ou não, não vem ao caso agora, mas anti-natural!? O que leva um homem a crer em Deus senão o fato de seus pais o crerem? Nada mais artificial do que Deus. Se tivéssemos que descobrir Deus por nós mesmos, será que seria assim tão fácil, tão natural? OK. Tomemos o racional do homem como o natural. Se alguém, que não tenha pais crentes, recebe a versão do Gênesis e a versão de Darwin. Qual convence mais? A Bíblia trata de Deus como se Ele já existisse. Ora, Cervantes também trata de Dom Quixote como se este existisse. O que a Bíblia faz é dizer QUEM ou O QUE é Deus (bom, sábio etc.) e não QUE ele é, isto é, que Ele existe. Disso se ocuparam Santo Anselmo e Descartes, entre outros. A própria palavra Javé (aquele que é) é uma petição de princípio.
Os ateus, por sua vez, também caem na aporia de partir do pressuposto de que Deus não existe, como Marx e Nietzsche fizeram. Portanto a filosofia não é menos artificial que a religião. Cabe, então, deixar o artificial de lado e debruçar-se sobre a mãe natureza.
Não podemos dizer que o homem, ao contrário dos animais, é NATURALMENTE levado a ter religião. Mas sim que o homem NATURALMENTE prevê, ao contrário dos animais, a sua morte. o animal não sabe que vai morrer, o homem sabe. Esta é a diferença. A partir desta diferença é que o homem crê ou não crê em vida após a morte. Logo, também se poderia dizer que o homem é NATURALMENTE ateu. Ao nascer numa sociedade em que todos acreditam em Deus, um homem é levado (não naturalmente) a também acreditar. Porém num mundo civilizado só é possível pensar o homem natural retrospectivamente, a partir de uma linha histórica, em que essa natureza é moldada. Numa sociedade primitiva, a falta de explicações gerou mitos (genêsis). Com o tempo, a ciência (Darwin) tomou o lugar do mito. Numa visão positivista, então, o homem seria "naturalmente" LEVADO ao ateísmo. Mas, afinal, o que se entende por "natural"? Um homem que nasce fora da civilização, criado por animais e, sem deixar descendentes, morre sem se civilizar? Ou a espécie que, a partir de um macho e uma fêmea primitivos iria gradativamente se civilizando? Tarzan ou Lagoa Azul? Tal pergunta significa: a História está contida na natureza do homem ou é algo que aconteceu por acaso? Em outras palavras: se o homem fosse extinto da Terra e nascesse outra vez (do macaco ou de Deus, não importa), a História seria a mesma? Tudo indica que não, pois o homem é livre. Porém esta liberdade mesma não o levaria, de um modo ou de outro, para o mesmo fim? O Nazismo é necessário à História? A luz elétrica e o carro poderiam NUNCA ser inventados nesta outra civilização? Talvez levassem mais tempo, ou menos, para ser inventados, se é que seriam.
Voltando para a única civilização que se conhece, um homem qualquer, que tenha morrido em 1315, está ainda no céu, numa história paralela? O que ele faz lá? Como fazer planos na eternidade, tipo: daqui 20 anos eu caso, dali 20 me aposento e dali mais 20 morro? Como seria fazer planos para sempre, não acabariam? Como viver, sem planos, uma felicidade que não é mais preciso buscar? A imortalidade da alma é análoga à imortalidade da matéria, na qual nada se perde, tudo se transforma. Não são eternas as menores partículas de que o corpo do homem é feito? Eternas porém brutas. Uma alma que vivesse para sempre não se embruteceria? Sua vida não perderia o sentido diante da eternidade que o condena a existir para sempre? Que tipo de felicidade é esta, estática e conformada? Estar vivo não é precisamente saber da morte futura? Ignorá-lo é NÃO o saber, como os animais. Se a morte é uma pergunta e a religião uma resposta, o que nos torna homens: o fato de criarmos uma resposta ou o fato de trazermos uma pergunta na alma?
Otávio

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

citação

o soneto é uma forma clássica que, apesar de eu não - conseguir - escrever (por incapacidade poética), gosto. Aliás, para mim, seria profano me utilizar de qualquer métrica, quando há pessoas que o fazem melhor que a gente, deve-se reconhecer (ainda que de maneira cínica). Não obstante, soneto é música, coisa de compositor, formato que admiro, sobretudo por sua pureza:

Ó formosura!

Piolhos cria o cabelo mais dourado;
Branca remela o olho mais vistoso;
Pelo nariz do rosto mais formoso
O monco se divisa pendurado:

Pela boca do rosto mais corado
Hálito sai, às vezes bem ascoroso;
A mais nevada mão sempre é forçoso
Que de sua dona o cu tenha tocado:

Ao pé dele a melhor natura mora,
Que deitando no mês pode gordura,
Fétido mijo lança a qualquer hora:

Caga o cu mais alvo merda pura;
Pois se é isto o que tanto se namora,
Em ti mijo, em ti cago, ó formosura!

Bocage