sexta-feira, 1 de junho de 2007

Jefferson e Wellington



Minha primeira crônica pra valer, feita numa oficina no solar do rosário, ministrada pela escritora Isabel Furini:

Jefferson já tomara seu café, odiava caviar, mas fazia questão de comer logo de manhã, pra passar mal o resto do dia. Saiu à janela, olhou a rua, vazia, olhou o céu, cinzento. Um caminhão vinha lentamente, um lixeiro encharcado da chuva se virava para pegar lixo por lixo e jogar no caminhão, era Wellington, sem seus companheiros, só ele e o motorista.

Jefferson contemplava Wellington, que tropeçou e caiu, em cima justamente de seu lixo, cheio de latinhas de caviar, que cortaram o dedão direito da mão e o rosto do lixeiro que, por sinal, nem percebeu o sangue escorrer, em meio a chuva, suor e sujeira.

Jefferson percebeu e, movido por um sentimento estranho, correu levantá-lo, sua assistência foi pouca, tudo que fez foi dizer:

- Está tudo bem? Então corre que o caminhão está indo embora!

O lixeiro odiava aquele bairro nobre, uma vez por mês se cortava naquelas latinhas nojentas.

Aquele episódio foi o suficiente para Jefferson passar o resto do dia na suposta boemia de afogar-se em lembranças, bebendo seu whisky francês. Pensou em toda aquela sua vidinha de trinta anos jogados fora, na qual tudo que soube fazer foi aquilo que os outros já sabiam que faria, seguir as regras da etiqueta e das boas maneiras e comer caviar.

Otávio, em 2002

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Rodrigo Madeira no wonka

Um tempo atrás eu ia lá na praça da espanha pra ler poesia com uma galerinha q escrevia, uma das vezes tava lá o Rodrigo, ele leu então uma poesia dele inspirada por uma prostituta q ele conheceu no gato preto, lésbica e prostituta. O nome da poesia era natureza-morta. Lembro q gostei. Em 2006 ele venceu o Helena Kolody na categoria paraná. Agora dia 22 publicou "Sol sem pálpebras" no Wonka bar. Tá lá o natureza-morta. Muito bom mesmo.

natureza-morta
no gato preto
hoy estoy besando un beso;
estoy solo con mis labios.
pedro salinas
teu beijo deve ter gosto de ácido de bateria
do licor das enzimas e vaginas
dos dentes do silêncio
de vestido azul sobre a cama
teu beijo deve ter gosto
do horizonte bordado de barcas
de peixe que se esbate no raso
e dos fôlegos das conchas
deve ter gosto
de margarida brotada na lua
de sangue na paleta da tarde
dos becos úmidos da cidade
da noite que aperta entre as coxas
teu beijo deve ter gosto
de lábios só saliva
das flores negras das axilas
de lesma atravessando o pátio
deve ter gosto
do amanhã, as raízes e hastes
de respiração boca a boca
dos corpos no escuro
de nuvens carregadas e mordaças
teu beijo deve ter gosto das lâminas
do aceiro de âncoras
da gasolina do açúcar
do fruto nem nascido
dos lábios da ferida
teu beijo deve ter gosto de língua
Rodrigo Madeira
Valeu a galera que me apresentou o WoNkA.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

citações

Ei! Qu@l eh o seu p®o(bl)ema?

Curso pré vest. = E agora vc.
Na cama que escolherei – Bom dia, poetas velhos
Meu amor eu não me esqueço (Marta) Não se esqueça por favor Que voltarei depres_
sa Tão logo a noite acabe Tão logo este tempo pas_
se
Parabeijarvocê.
Inglês – já não pode beber
Básico – já não pode fumar
Batel = cuspir já não pode
Quando vi flor encantada me encantei por ela, quando vi. E agora José (vc q eh s/ nome)
Não quero ser triste, como o poeta que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniênciasQUANDO
...te cansares de tudo, olha tua mão e te diz: estou cansado de tudo.
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela? (levanto a mão, é uma mão de macaco) Sim, ser vadio e pedinte como eu sou não é ser vadio e pedinte o que é corrente: é ser isolado na alma (isso é que é ser vadio) é ter que pedir aos dias que passem e nos deixem (isso é que é ser pedinte).
‘Uns’ te preferem suicida
eu te quero (terei a mulher que quero) pela vida que celebraste na flauta de uma vértebra patética (José, e agora?) molhada no sangue rubro de um crepúsculo de outubro (se bem me lembro) armandoglaucodalton: o pauloleminski é um cachorro louco (o filhodaputa)
me-vou em! (Vem, vambora!) Bora pra Pasárgada!
Quando as amantes e o amigo te transformarem num trapo faça um poema, (V. Perneta des. Motta – Claris_
se) vo-cê-mar-cha-Jo_
sé Joseparaonde? faça um poema, JoaquimQUE
...me vale o teu amor, Ziza, se o que eu vejo é o viaduto e muitos, muitos carros? Material did. (Samara) Meu amor é simples, Dora, – mensal – como a água e o pão. Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
Lembrar: meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão.

P.S.: Coitado do Álvaro de Campos, tão isolado na vida, tão deprimido nas sensações (coitado dele), enfiado na poltrona de sua melancolia (coitado dele).

(des)organização: Otávio

domingo, 20 de maio de 2007

Pingos no i - de como ser otávio é ser pseudo

Acreditar que autor e narrador têm uma ligação direta é tão ignorante quanto afirmar "estudo demais deixa louco". É óbvio que o narrador tem uma ligação forte com o autor, mas os autores policiais não são assassinos, Goethe escreveu Werther com muita pessoalidade mas não se matou, e talvez até os autores de best-sellers não sejam tão ignóbeis quanto suas obras.
Ora, se é para ser freudiano, quem diz que ‘toda ficção é autobiográfica’ deve ser tão bitolado que nunca conseguiu escrever nada que não fosse autobiográfico. É como dizer que o dentista é um dente ambulante ou que o escriturário é um arquivo em pessoa. É fácil repetir "os conceitos da psicanálise vulgarizada" (como diria Adorno) sem dar argumentos para isso. Maiakovski e Torquato Neto, para ficar só com dois exemplos, suicidaram-se. Manuel Bandeira tinha tuberculose, etc. Porém o legado desses poetas transcende qualquer caráter autobiográfico. Os lugares-comuns psicanalóides que passam de boca em boca são, no mínimo, reducionistas.
A palavra "depressivo" nunca esteve tão na moda, no entanto esquece-se de palavras como "catarse". Infelizmente nem todo mundo tem tempo de ler um livro que seja, como a Poética de Aristóteles, por exemplo. Afinal, estudar demais deixa louco, não é mesmo? Eu tive um professor no cursinho que nos aconselhava só conversar com quem soubesse logarítmo. "Puxou conversa no ponto de ônibus, - dizia ele - você pergunta: - 'sabe logarítmo? Não? Então não fale comigo'". Às vezes tenho vontade de fazer assim: 'leu Machado de Assis? Não? Então não fale comigo'.
Alguém disse que se as pessoas não precisam da filosofia, a filosofia também não precisa das pessoas, o mesmo vale para a literatura. Como diria Fernando Pessoa, "tudo menos importar-me com a humanidade". Ou Nietzsche no prólogo do Anticristo, ao falar de seus poucos leitores: “ que importa o resto? O resto é apenas a humanidade”. Mas concordar com isso seria de uma responsabilidade muito grande, prefiro concordar com Paulo Leminski: “Escrevo e pronto. Tem que ter por quê?”.


Otávio

sábado, 19 de maio de 2007

Clube da esquina


E falando em Minas...
Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim
O que vou dizer você nunca ouviu de mim pois minha timidez não me deixou falar por muito tempo, para mim você é a luz que revela os poemas que fiz
Se eu cantar não chore não, é só poesia
Se eu morrer não chore não, é só a lua
Você me quer forte e eu não sou forte mais
Sou o fim da raça, o velho, o que já foi
Da janela lateral do quarto de dormir vejo uma igreja, um sinal de glória, vejo um muro branco e um vôo pássaro, vejo uma grade, um velho sinal.
Vento de maio, rainha dos raios, estrela cadente.
E se no rádio do carro eu escuto a nossa canção
Sol girassol e meus olhos abertos pra outra emoção
E quase que eu me esqueci que o tempo não pára nem vai esperar
Vento de maio, rainha dos raios do sol
Rouxinol me ensinou que é só não temer
Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranqüilo
Todo amor será comunhão
O mal não faço
Eu quero o bem
Lô Borges, Milton Nascimento, Fernando Brandt, Ronaldo Bastos e cia ltda

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Des-decomposição




Como separar

a alma do (corpo da alma-do-corpo)?




Otavio, estilo irmaos Campos

Silviano Santiago deu entrevista no Paiol

“Nunca li livro ruim, só fui ler livro ruim na faculdade de filosofia”
“Não me considero infeliz, eu me considero um otimista sem convicção”

sábado, 12 de maio de 2007

Esperando o madrugueiro

- Daê piá!
- Daê.
- Dando um rolê pelo centro?
- É.
- Chegou a ir ali no Danny's?
- Nem fui.
- Vai pegar o colombo também?
- O pinhais.
- Eu morei ali na vila perneta um tempo.
- É?
- E o Catarina, tá funcionando ainda?
- Tá.
- Eu ia lá direto, antigamente.
- Hum...
- Dei umas mancada essa noite.
- O quê?
- Peguei umas vagabunda aí e empenhei o celular de trezentos pau por deizão. E elas não quer nem saber né.
- Pois é.
- Tem um cigarro aí?
- Não fumo.
- Bem que faz. Tem celular?
- Tenho.
- Não quer fazer um jogo nele?
- Não.
- Então, polaco, tem um real pra inteirar o ônibus?
- Pior que não.
- Esquenta não... Falô piá!
- Falô.
- Daê moreno! Dando umas banda aí também?...

Otávio, no terminal Guadalupe

"Saiba: todo mundo teve mãe" (Arnaldo Antunes)


"Saiba: todo mundo teve pai" (Arnaldo Antunes)


Transcrevo trecho da mono de pós: Enxerto gengival. Deficiências dos tecidos moles podem ser corrigidos neste estágio de tratamento. As pequenas depressões teciduais ou as concavidades vestibulares envolvendo a crista, podem ser corrigidas pelo tecido conjuntivo subepitelial enxertado para aumentar o volume vestibularmente, se necessário. A gengivoplastia com broca diamantada é realizada também para corrigir as margens irregulares.