sábado, 12 de maio de 2007

citação


"...azul

era o gato

azul era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu


tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)..."

Ferreira Gullar

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Gilberto Dimenstein e outros nomes

para o mestre da crônica e do humor, Luis Fernando Veríssimo

A linguagem é a coisa mais arbitrária que existe. Por que não chamamos o vizinho de cadeira e a cadeira de Sebastião? Ariranha, por exemplo, parece algum tipo de aranha mutante (tenho a impressão de que alguém já disse isso). Talvez bem-te-vi e quero-quero sejam algumas das exceções. Se dizemos leite, pensamos no branco. Se banana flambada, numa coisa mole e viscosa. Frederico: um homem de nariz fino. Carolina: uma mulher de cabelo encaracolado, etc.
Há nomes que dispensam nomeados. Gilberto Dimenstein, por exemplo, só pelo nome já dá pra saber que o cara entende de política e economia. Millôr Fernandes e Jaguar, só podiam ser cartunistas. Bóris Casói, só podia ter aquela voz arrastada. Porém há nomes que não combinam. Quem já não pensou que Eça de Queiroz fosse uma mulher, irmã da Raquel, talvez? Dalton Trevisan? Deve ser algum pintor renascentista. Paulo Coelho? Um grande escritor, parceiro parnasiano do Olavo Bilac, não?
Os presidentes são outro fracasso, deviam criar um nome artístico quando eleitos. Médici, não era ele que era médico? Geisel, lembra alguma tecnologia, ligada ao petróleo, gás. Sarney é duplamente problemático, não combina com presidente nem com poeta, lembra sarna, dá até coceira. Costa e Silva, que pobreza! Com este nome devia ser no máximo vereador. Tipo: "Sabe o Silva? Vai distribuir boné no comício". Collor: parece marca de sabão em pó; de Mello: sabão líquido. E Itamar Franco? Isso mesmo, um galináceo, ainda mais com aquela cara que ele tinha.
Outra coisa que intriga é o palavreado mais popular. Estilo: do caralho, da bexiga. Imagine: "Comprei um barbeador do caralho que faz um barulho chato da bexiga". Já dá pra imaginar o cara nu na frente do espelho, depilando o pinto e ouvindo um barulhinho lá dentro. Mas um dos termos mais ingratos é incontestavelmente a cara-de-bunda. Pô, a gente tá ali curtindo uma tristeza camoniana, porque levou um fora ou morreu um vô da gente, vem uma patricinha com uma pinta enorme na bochecha, mascando cicletes e diz:
- Nossa, que cara-de-bunda!!! - dá vontade de enfiar uma calcinha na cabeça e sair correndo.

Otávio (lembra otário, fala a verdade)

domingo, 6 de maio de 2007

Por um conceito de ateísmo

"O existencialismo não é tanto um ateísmo no sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara, mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria."
Sartre
Tanto para quem quer converter como para quem procura ser convertido, a fé não é um investimento, mas uma aposta. O problema é fazê-la honestamente. Problema? - poderiam objetar - Qual é o problema de se crer em Deus só de mentirinha? Bom , se a hipocrisia não fosse um problema, tudo bem. Ora, trata-se do extremo-oposto do fanatismo, igualmente perigoso. "Sou católico mas vou à zona; sou gay porém evangélico." Pascal os chamaria de "aqueles que crêem sem inspiração", Pe. José Fernandes de Oliveira de "quem acredita e não crê". No fundo, os cristãos não ligam tanto para Deus quanto para a imortalidade da alma. O católico fala em Purgatório, o protestante em Nova Jerusalém e o kardecismo em reencarnação. Voltaire lembra, no seu Dicionário Filosófico, que, no Judaísmo, Deus era promessa de prosperidade DURANTE a vida e não DEPOIS dela. No entanto, com o novo testamento, por que se preocupar com a vida, se depois continua-se existindo? Ou seja, no Cristianismo, a vida é negada e superada em prol de uma existência eterna, no nível da doutrina dos anjos. (Sobre a negação da vida: NIEZSTCHE, Friedrich - O anticristo)
Não obstante, podemos falar também num ateísmo-palavra, isto é, um ateísmo a título de bravata. "Não acredito em Deus mas numa energia cósmica; sou ateu e creio na força do pensamento." Não, estes não são ateus, pois (como lembrou uma professora uma vez) neste caso, a questão não é SE Deus existe mas QUEM Ele é. Mas por que alguém fingiria ser ateu? Dizem "céticos" como Montaigne e Voltaire, reiterados por Pascal: para pousar de intelectual. Contudo, SER ateu é diferente, é sê-lo na hora de dormir, de pegar o ônibus entre a multidão, etc., não algo que se comunica mas algo que se sente. (Sobre isto: CAMUS, Albert - O Estrangeiro)
Pascal é um bravo defensor do cristianismo e num momento ele se pergunta: Por que o ateu quer anunciar que Deus não existe se isto é triste e inútil? Qual a utilidade de uma pessoa saber que vai deixar de existir? É como tirar-lhe o chão. Porém o mesmo Pascal vai criticar a hipocrisia dizendo que deveríamos ser mais verdadeiros e não esconder aquelas opiniões que machucam.
É polêmica a questão de um ateísmo militante. Segundo Sartre, toda ação particular engaja a Humanidade inteira, é neste sentido que não se pode ser existencialista sem ser humanista. (SARTRE, Jean Paul - O existencialismo é um humanismo) Quer dizer, se alguém decide ser ateu, está com isso afirmando a legitimidade de o ser. o mesmo vale para o homossexualismo, a castidade, o serviço militar e qualquer escolha.
Se admite-se que a bíblia, por exemplo, tem todas as respostas, não há livre-arbítrio a não ser na teoria, daí, na prática, a predestinação, que é antes ideológica que divina. Traduzindo: "Deus proverá", estava escrito, é o destino, se Deus quiser, graças a Deus, Deus quis, larga na mão de Deus, etc. Eu prefiro pensar (i) que sou livre e (ii) que não vou viver para sempre. Porque, se a vida fosse eterna, ao contrário do que se pensa normalmente, nada valeria à pena. Afinal, que diferença haveria entre fazer algo agora ou daqui a mil anos?
Uma das principais críticas que se faz ao ateísmo é que tira a esperança das pessoas e não dá nada em troca. Ora, se desse, já seria uma religião. Por isso, ao invés de Marx falar numa crítica da religião, a la Feuer Bach, ele falava numa crítica do direito. Agora, o "vazio" é justamente o ponto de partida do homem, daí a teorização do desespero, o qual se opõe à esperança. Todavia, enquanto a esperança se projeta no futuro, e porquanto pode conviver com a fé, o desespero parte do presente e nele permanece, pois tem a seu favor apenas o campo da realidade.

(Otávio)

citação

Para todos os cogumelos que andam por aí:

"Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: 'Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!' e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem, é um cogumelo!" (St.-Exupéry - Pequeno Príncipe, cap. XII)

Ser entre coisas

O que seria isto, um haicai urbano?

Detrás do piercing
Dos óculos e walkman
Existe alguém?

(Otávio)

sábado, 28 de abril de 2007

citação

"Pienso que acabo de perder la fe en este momento, y al no tener fe, ya no creo en Dios ni en el infierno. Si no creo en el infierno ya no tengo miedo, y sin miedo, soy capaz de cualquier cosa"
- trecho do filme "Má educação" de Almodóvar

Balada do amor egoísta

Você me namora
Eu me namoro
Nós me namoramos
Você me ama
Eu me amo
Nós me amamos
Você me tem
Eu me tenho
Nós me temos

terça-feira, 24 de abril de 2007

citação


..."Mother, everytime I call you home, you are in church. Father, eveytime I call you home, you are saying: true devotion is the way... Sister, everytime I call you home, you are shopping"...

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Poema engajado

"Há homens que lutam um dia e são bons
Há outros que lutam um ano e são melhores
Há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons
Porém há os que lutam a vida toda
Esses são os imprescindíveis"
(Brecht, citado por Mercedes Sosa
em "Sueño con serpientes")
Enquanto mil morrem de fome
E de frio morrem mais mil
E outro tanto quer partir
O pessoal de Humanas
Está dando uma frangada
(Otávio)

domingo, 15 de abril de 2007

citação

Como diz Wilson Bueno, "eu não leio Clarice Lispector,
Eu rezo Clarice Lispector":

"A porta para o interior da casa abriu-se finalmente e sua tia com um robe de flores grandes precipitou-se sobre ela. Antes que pudesse fazer qualquer movimento de defesa, Joana foi sepultada entre aquelas duas massas de carne macia e quente que tremiam com os soluços. De lá de dentro, da escuridão, como se ouvisse através de um travesseiro, escutou as lágrimas:
- Pobre da órfãzinha! (...) Joana recebeu beijos angustiados pelos olhos, pela boca, pelo pescoço. A língua e a boca da tia eram moles e mornas como as de um cachorro. Joana fechou os olhos um instante (...) Os seios da tia eram profundos, podia-se meter a mão como dentro de um saco e de lá retirar uma surpresa, um bicho, uma caixa, quem sabe o quê...
- Me deixe! - gritou Joana agudamente (...) As paredes eram grossas, ela estava presa, presa! Um homem no quadro olhava-a de dentro dos bigodes e os seios da tia podiam derramar-se sobre ela, em gordura dissolvida. Empurrou a porta pesada e fugiu."(Perto do coração selvagem)