sábado, 8 de junho de 2019

Resposta a Álvaro de Campos


Fernando Pessoa, com seu heterônimo mais depressivo, dizia que, passadas algumas semanas do teu suicídio, ninguém se lembrará de ti. Ele estava errado. Pois não raro me recordo do meu grande amigo Felipe, muito embora a vida imponha a todos nós o imperativo do esquecimento de tantas coisas, em favor de nossa sanidade mental. Mesmo agora, você me faz questionar, como tantas vezes me fez discordando de mim. Me questiono, por exemplo, como a tua generosidade pôde, como um carro desgovernado que bate na barreira de pneus, acabar em um ato tão egoísta. Me questiono também como, em um mundo com a sertralina, a fluoxetina, a paroxetina e tantos outros inibidores seletivos da recaptação da serotonina (com perdão da cacofonia, que sei que te incomodava), você foi parar nas estatísticas que tanto se escondem e mitigam; lembrando que este é o mesmo mundo da psicanálise que, segundo você, surgiu quando Freud leu a vontade de poder do Nietzsche com “ph”.
A nossa conversa sobre suicídio, ou sobre eutanásia, como preferíamos chamar, nunca acabou... sempre restava alguma ponta filosófica solta neste novelo. Que falta você faz em um mundo tão simplista e reducionista! Seu repúdio à esquerda sempre foi um repúdio ao reducionismo. Seu repúdio aos Beatles e aos Rolling Stones era um repúdio ao óbvio e aos cânones da modernidade líquida, nisto você fazia coro com Adorno. Seu gosto por Shakespeare era um encanto tanto pela tragédia como pela comédia, não por acaso eras um fã do pequeno Shakespeare, o Chespirito. Isto é verdade por duas lembranças que guardo com carinho de ti.
O gosto pela tragédia e pela comédia, igualmente eficazes no seu efeito catártico, se reflete no que escreveste certa vez, a saber, que se pudesses ser um animal, serias um urso bipolar. A outra lembrança diz respeito à sua leitura metafísica de Chaves, quando ostentavas em teu MSN a frase “Esperem só até eu ganhar a minha bola quadrada!”. Aparentemente, você foi tão generoso que me deixou de presente a bola quadrada dos meus questionamentos, pois até mesmo o Kiko tinha momentos de generosidade. Se não me engano foi você quem me disse uma vez: no Chaves todo mundo é fudido! Não tem ninguém perfeito. É verdade. Mas eu posso alimentar nossa conversa interrompida, sobre o suicídio, com a ideia de que os suicidas têm certo apego à perfeição. Creio que foi assim com Van Gogh e Santos Dumont. Eu me pergunto, entre outras coisas, que orelha você tanto queria pintar. Aliás, é uma pena não poder te emprestar o livro “Meu amigo pintor” da Lígia Bojunga, tenho certeza que te tocaria mais do que aquele poema do Maiakovski que você, sempre autêntico, disse não ter “entendido a pira”. Você não gostava muito de MPB, mas tenho certeza que você entendeu melhor do que ninguém o que significa “amar daquela vez como se fosse a última”. No fim todos morreremos na contramão, atrapalhando o tráfego. O tráfego, fluvial, da modernidade líquida, e quem se atrever a atravessá-lo será atropelado por barcos cheios de memes.
Uma das lembranças que guardo com mais carinho de ti é a tarde em que marcamos de ir no Paiol literário, perto da PUC, onde estudaste. No entanto, paramos para tomar uma cerveja num bar e, a certa altura, desistimos de ver o entrevistado da noite. Durante aquela cerveja, que não foi só uma, falamos de existencialismo cristão e de niilismo (pode ser que o Kierkegaard tenha entrado na história, mesmo que nenhum de nós dois o tenha lido à época), de repente você mencionou Francisco de Assis como um admirável religioso niilista, com seu niilismo mitigado. E ainda fascinados por esta inversão de expectativa, eu mencionei Jesus como um niilista “enrustido” e, embora eu estivesse apenas reverberando uma tese nietzschiana, este foi o start de uma risada que parecia que nunca mais ia acabar. Rimos tanto quanto as pessoas daquela crônica do Veríssimo que você gostava. Ou era do Rubem Braga?? Sim, era do Rubem Braga. Veríssimo era midiático demais para você (o Luís, mas não o Érico!), e não te permitias te identificar com ele apenas por causa da timidez, como talvez eu tenha feito.
Pasme, mas eu muitas vezes citei você para impressionar garotas, por exemplo com tua interpretação de “Hallowed be thy name” vis a vis O muro e O estrangeiro, respectivamente de Sartre e Camus, música da donzela de aço pela qual eras apaixonado, numa promiscuidade na qual te permitias te apaixonar por tantas outras coisas. A última vez que me lembrei inadvertidamente de ti foi quando eu conversava com uma menina no Tinder, e ela disse que gostava de humanas, e eu disse “eu também, não tenho sorte com as outras fêmeas”. Eu perdi a menina, mas não perdi a piada. Saiba que terás em mim um continuador das piadas do tio do pavê, sem que se caia na irresponsabilidade e superficialidade do atual presidente da república, por exemplo. Sei que você repudiava a far right tanto quanto a far left. Você que chegava a negar o cunho de protesto de algumas canções dos anos setenta, em favor de interpretações atemporais, que eram igualmente válidas, e que faziam parte da estratégia de drible à censura. A intensidade com que concordávamos era, pendularmente, alimentada pela intensidade com que discordávamos, talvez porque tínhamos em comum esta paixão pela linguagem e suas manifestações ao longo da história. Nem eu nem você acreditávamos em vida após a morte, mas nas últimas conversas eu me lembro do desprezo que você nutria pelo ateísmo, novamente aqui estava o seu repúdio a toda forma de reducionismo. Pois é, meu caro, como não acreditar em vida após a morte se eu mesmo tantas vezes morri, na depressão, e de certa forma sobrevivi, e você, cuja presença física me foi tão cruelmente negada, ainda está tão vivo em minha memória?

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Paraíso do Tuiuti 2018 | Clipe oficial #NãoSouEscravoDeNenhumSenhor

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Informação ao crucificado

...percebo a vida religiosa em aspectos teatrais, rotineiros. Sinto-a naufragada sem remissão num rito estéril que, tirante a beleza, nada mais lembra que a nossa vã condição de homem. A alma, então, parece-me feita de carne. E gemo, pedindo um pouco mais de eternidade.
...Pe. Jorge, professor de literaturas antigas, pediu-me o discurso. Ouvira mal a leitura, do canto onde estava perdera palavras, queria fazer juízo mais detido. Entreguei-lhe o papelório. Pe. Jorge mudou de óculos, franziu a testa, enfiou-se na leitura das doze páginas datilografadas. A testa ficou enrugada até o final. Por dois ou três momentos esboçou um sorriso. Acabou a última folha, olhou no verso para ver se tinha mais, trocou novamente os óculos. E com uma porção de sentidos:
- É. Você anda lendo demais. Papini, Karl Adam, Daniel Rops, Carrel e outros. É preciso agora pensar um pouco sobre tudo o que já leu. Não seja tão apressado. O mundo não está à espera de sua opinião. Guarde-a consigo mesmo até se sentir original. E quando se sentir original, seja então mais original, guarde mais ainda o que sabe.
Eduardo fazia ar de triunfo. Eu fiz ar cristão:
- Muito obrigado!

(Cony, trechos)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Como assim, escola sem ideologia?

por Marcelo Rubens Paiva

O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo.
Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as grandes guerras, a guerra fria, o liberalismo econômico, sem uma visão de esquerda?
A minha do colegial era a Zilda, inesquecível, que dava textos de Marx Webber, do mundo segmentado do trabalho. Ela era sarcástica com a disparidade econômica e a concentração de renda do Brasil. Das quais nossas famílias, da elite paulistana, eram produtoras.
Em seguida, veio o professor Beno (Benauro). Foi preso e torturado pelo DOI-Codi, na leva de repressão ao PCB de 1975, que matou Herzog e Manoel Fiel Filho. Benauro era do Partidão, como nosso professor Faro (José Salvador), também preso no colégio. Eu tinha 16 anos quando os vimos pelas janelas da escola, escoltados por agentes.
Outro professor, Luiz Roncari, de português, também fora preso. Não sei se era do PCB. Tinha um tique nos olhos. O chamávamos de Luiz Pisca-Pisca. Diziam que era sequela da tortura. Acho que era apenas um tique nervoso. Dava aulas sentado em cima da mesa. Um ato revolucionário.
Era muito bom ter professores ativistas e revolucionários me educando. Era libertador.
Não tem como fugir. O professor legal é o de esquerda, como o de biologia precisa ser divertido, darwinista e doidão, para manter sua turma ligada e ajudar a traçar um organograma genético da nossa família. A base do seu pensamento tem de ser a teoria da evolução. Ou vai dizer que Adão e Eva nos fizeram?
O de química precisa encontrar referências nos elementos que temos em casa, provar que nossa cozinha é a extensão do seu laboratório, sugerir fazer dos temperos, experiências.
O professor de física precisa explicar Newton e Einstein, o chuveiro elétrico e a teoria da relatividade e gravitacional, calcular nossas viagens de carro, trem e foguete, mostrar a insignificância humana diante do colossal universo, mostrar imagens do Hubble, buracos negros, supernovas, a relação energia e massa, o tempo curvo.
Nosso professor de física tem que ser fã de Jornada nas Estrelas. Precisa indicar como autores obrigatório Arthur Clarke, Philip Dick, George Orwell. E dar os primeiros axiomas da mecânica quântica.
O professor de filosofia precisa ensinar Platão, Sócrates e Aristóteles, ao estilo socrático, caminhando até o pátio, instalando-se debaixo de uma árvore, sem deixar de passar pela poesia de Heráclito, a teoria de tudo de Parmênides, a dialética de Zenão. Pula para Hegel e Kant, atravessa o niilismo de Nietzsche e chega na vida sem sentido dos existencialistas. Deixa Marx e Engels para o professor de história barbudo, de sandália, desleixado e apaixonante.
O professor de português precisa ser um poeta delirante, louco, que declama em grego e latim, Rimbaud e Joyce, Shakespeare e Cummings, que procura transmitir a emoção das palavras, o jogo do inconsciente com a leitura, a busca pela razão de ser, os conflitos humanos, que fala de alegria e dor, de morte e prazer, de beleza e sombra, de invenção fingimento.
O de geografia precisa falar de rios, penínsulas, lagos, mares, oceanos, polos, degelo, picos, trópicos, aquecimento, Equador, florestas, chuvas, tornados, furacões, terremotos, vulcões, ilhas, continentes, mas também de terras indígenas, garimpo ilegal, posseiros, imigração, geopolítica, fronteiras desenhadas pelos colonialistas, diferenças entre xiitas e sunitas, mostrar rotas de transação de mercadorias e comerciais, guerra pelo ouro, pelo diamante, pelo petróleo, seca, fome, campos férteis, civilização.
A missão deles é criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar. Espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista.
O paradoxo do movimento Escola Sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.
Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?
A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.
Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.

O Estado de S. Paulo
16 Julho 2016