sábado, 29 de abril de 2023

Três crônicas na fronteira

 Na aduana argentina, entrego o RG à funcionária.

- Tinha cabelo curto? - ela pergunta.

- Tinha - confirmo.

Ela sorri, e me entrega o documento.

"A cara de trouxa continua a mesma", deve ter pensado.


-


Na churrascaria, a mulher pergunta:

- Tem picanha?

O churrasqueiro saca o espeto como uma espada e o coloca no balcão.

- Tem mal passada? - a mulher protesta.

- O que tem é essa aqui - diz o churrasqueiro.

Silêncio.

Ela o olha bem no olho, séria, e pergunta:

- Você tem coração?


-


Ainda na churrascaria, no espaço kids, as crianças gritam entre soprano e tenor, sem musicalidade, e dão coices na piscina de bolinha, numa brincadeira incompreensível aos adultos. Até que um exagera no seu grito tenor, e o pai contemporiza:

- Não grita! Olha, tem sorvete lá...

As cinco ou seis crianças saem correndo em direção ao freezer, fazendo tremer o piso de madeira do local.

- Oba, sorvete! - diz o mais novo.

- Tem que ver se tem de milho - completa o mais velho (e mais sábio).


Otávio, Foz do Iguaçu, 2023.

sábado, 21 de março de 2020

A aranha na parede

É sábado. Ainda na cama, abro o olho e vejo uma terrível aranha na parede. Não: não foi aranha, nem foi na parede, mas foi o suficiente para tirar o meu sono. Já diria o poeta: o amor é isso, hoje beija, amanhã não beija. Esse sábado não beijou, preferiu apartar-se mais uma vez. Em seu lugar, surge sempre essa paisagem absurda: tudo que sempre esteve ali, porém “solto” como numa exposição. A roupa no cabide obedece apenas ao capricho de um curador, que em sua mente embriagada de arte quer mostrar ao público que nada faz sentido. Porque o primeiro impulso do público é vestir a roupa e ir pro trabalho. Mas... é sábado. No tanque há duas ou três folhas secas. Voaram até ali. A água da máquina irá envolvê-las numa dança plena de sentido. O único sentido que sobrou neste sábado: a complexidade da causa e do efeito. Passeio pela exposição em que acordei, como por engano. A garrafa de vinho vazia é uma peça interessante. Foi deixada sobre a mesa. Afastando-a, quase leio uma explicação no guardanapo em branco: esta garrafa simboliza a embriaguez desmedida de uma pessoa absurda; a uva, não por acaso, é tempranillo, que segundo os especialistas, “não envelhece bem” – a acidez é baixa, tem a elegância dos vinhos jovens. Também quem o bebeu não envelhece bem. Pois o tempo passou e não aprendeu a forjar um sentido, a ver a roupa fora do cabide, acompanhando o movimento do corpo, torcendo-se com as articulações. Mais do que forjá-lo, esforçou-se por relativiza-lo, com sucesso. É só isso: às vezes a engrenagem para, não se sabe bem por que, mas de todo modo ela volta a girar. Deixarei que isso aconteça amanhã. Só os suicidas têm real sede de sentido, e dela morrem. Nós, os não suicidas, convivemos bem com o absurdo. Pelo mesmo motivo que ainda não retirei as folhas secas do tanque, deixarei que os afagos do amor se afastem, e que em seu lugar venha a tempestade de areia. Basta fechar bem os olhos e a boca e aguardar um instante. Se olhar pela janela, ou melhor, pelo celular, vou ver a vida acontecendo. Posso ver todo este movimento como uma dança louca, um teatro incompreensível, mas me lembro que faço parte disto tudo. Não optei pelo suicídio porque o mundo não se tornou totalmente estranho, nem acho que se tornará. Eu danço a mesma dança que eles. Às vezes eu paro, mas ninguém percebe. Depois de amanhã é segunda, e a aranha não estará mais na parede, estará grudada na sola de algum chinelo; sentirei sono, mas levantarei cedo, vestirei a roupa e, abrindo a janela, ouvirei a música do mundo. Será hora de voltar a dançar.

domingo, 19 de janeiro de 2020

*

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia
(...)
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
(...)
As coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora
Aliás, é também objeto de poesia saber
qual o período médio que um homem jogado fora
pode permanecer na Terra
sem nascerem em sua boca
as raízes da escória
(...)
*de Manoel de Barros, Matéria de Poesia

sábado, 21 de setembro de 2019

Citação

Mesmo quem não lamenta o desaparecimento das ilusões religiosas no mundo cultural de hoje admitirá que, enquanto ainda estavam em vigor, ofereciam aos indivíduos ligados por meio delas a mais enérgica proteção contra o perigo da neurose. Também não é difícil reconhecer em todas as ligações com seitas e comunidades místico-religiosas ou filosófico-místicas a expressão de curas tortas de variadas neuroses. (...) Abandonado a si mesmo, o neurótico é forçado a substituir as grandes formações de massa, das quais está excluído, pelas suas formações de sintoma. Ele cria seu próprio mundo imaginário, sua religião, seu sistema delirante, e repete assim as instituições da humanidade... (FREUD, S. Psicologia das massas e análise do eu)

sábado, 8 de junho de 2019

Resposta a Álvaro de Campos


Fernando Pessoa, com seu heterônimo mais depressivo, dizia que, passadas algumas semanas do teu suicídio, ninguém se lembrará de ti. Ele estava errado. Pois não raro me recordo do meu grande amigo Felipe, muito embora a vida imponha a todos nós o imperativo do esquecimento de tantas coisas, em favor de nossa sanidade mental. Mesmo agora, você me faz questionar, como tantas vezes me fez discordando de mim. Me questiono, por exemplo, como a tua generosidade pôde, como um carro desgovernado que bate na barreira de pneus, acabar em um ato tão egoísta. Me questiono também como, em um mundo com a sertralina, a fluoxetina, a paroxetina e tantos outros inibidores seletivos da recaptação da serotonina (com perdão da cacofonia, que sei que te incomodava), você foi parar nas estatísticas que tanto se escondem e mitigam; lembrando que este é o mesmo mundo da psicanálise que, segundo você, surgiu quando Freud leu a vontade de poder do Nietzsche com “ph”.
A nossa conversa sobre suicídio, ou sobre eutanásia, como preferíamos chamar, nunca acabou... sempre restava alguma ponta filosófica solta neste novelo. Que falta você faz em um mundo tão simplista e reducionista! Seu repúdio à esquerda sempre foi um repúdio ao reducionismo. Seu repúdio aos Beatles e aos Rolling Stones era um repúdio ao óbvio e aos cânones da modernidade líquida, nisto você fazia coro com Adorno. Seu gosto por Shakespeare era um encanto tanto pela tragédia como pela comédia, não por acaso eras um fã do pequeno Shakespeare, o Chespirito. Isto é verdade por duas lembranças que guardo com carinho de ti.
O gosto pela tragédia e pela comédia, igualmente eficazes no seu efeito catártico, se reflete no que escreveste certa vez, a saber, que se pudesses ser um animal, serias um urso bipolar. A outra lembrança diz respeito à sua leitura metafísica de Chaves, quando ostentavas em teu MSN a frase “Esperem só até eu ganhar a minha bola quadrada!”. Aparentemente, você foi tão generoso que me deixou de presente a bola quadrada dos meus questionamentos, pois até mesmo o Kiko tinha momentos de generosidade. Se não me engano foi você quem me disse uma vez: no Chaves todo mundo é fudido! Não tem ninguém perfeito. É verdade. Mas eu posso alimentar nossa conversa interrompida, sobre o suicídio, com a ideia de que os suicidas têm certo apego à perfeição. Creio que foi assim com Van Gogh e Santos Dumont. Eu me pergunto, entre outras coisas, que orelha você tanto queria pintar. Aliás, é uma pena não poder te emprestar o livro “Meu amigo pintor” da Lígia Bojunga, tenho certeza que te tocaria mais do que aquele poema do Maiakovski que você, sempre autêntico, disse não ter “entendido a pira”. Você não gostava muito de MPB, mas tenho certeza que você entendeu melhor do que ninguém o que significa “amar daquela vez como se fosse a última”. No fim todos morreremos na contramão, atrapalhando o tráfego. O tráfego, fluvial, da modernidade líquida, e quem se atrever a atravessá-lo será atropelado por barcos cheios de memes.
Uma das lembranças que guardo com mais carinho de ti é a tarde em que marcamos de ir no Paiol literário, perto da PUC, onde estudaste. No entanto, paramos para tomar uma cerveja num bar e, a certa altura, desistimos de ver o entrevistado da noite. Durante aquela cerveja, que não foi só uma, falamos de existencialismo cristão e de niilismo (pode ser que o Kierkegaard tenha entrado na história, mesmo que nenhum de nós dois o tenha lido à época), de repente você mencionou Francisco de Assis como um admirável religioso niilista, com seu niilismo mitigado. E ainda fascinados por esta inversão de expectativa, eu mencionei Jesus como um niilista “enrustido” e, embora eu estivesse apenas reverberando uma tese nietzschiana, este foi o start de uma risada que parecia que nunca mais ia acabar. Rimos tanto quanto as pessoas daquela crônica do Veríssimo que você gostava. Ou era do Rubem Braga?? Sim, era do Rubem Braga. Veríssimo era midiático demais para você (o Luís, mas não o Érico!), e não te permitias te identificar com ele apenas por causa da timidez, como talvez eu tenha feito.
Pasme, mas eu muitas vezes citei você para impressionar garotas, por exemplo com tua interpretação de “Hallowed be thy name” vis a vis O muro e O estrangeiro, respectivamente de Sartre e Camus, música da donzela de aço pela qual eras apaixonado, numa promiscuidade na qual te permitias te apaixonar por tantas outras coisas. A última vez que me lembrei inadvertidamente de ti foi quando eu conversava com uma menina no Tinder, e ela disse que gostava de humanas, e eu disse “eu também, não tenho sorte com as outras fêmeas”. Eu perdi a menina, mas não perdi a piada. Saiba que terás em mim um continuador das piadas do tio do pavê, sem que se caia na irresponsabilidade e superficialidade do atual presidente da república, por exemplo. Sei que você repudiava a far right tanto quanto a far left. Você que chegava a negar o cunho de protesto de algumas canções dos anos setenta, em favor de interpretações atemporais, que eram igualmente válidas, e que faziam parte da estratégia de drible à censura. A intensidade com que concordávamos era, pendularmente, alimentada pela intensidade com que discordávamos, talvez porque tínhamos em comum esta paixão pela linguagem e suas manifestações ao longo da história. Nem eu nem você acreditávamos em vida após a morte, mas nas últimas conversas eu me lembro do desprezo que você nutria pelo ateísmo, novamente aqui estava o seu repúdio a toda forma de reducionismo. Pois é, meu caro, como não acreditar em vida após a morte se eu mesmo tantas vezes morri, na depressão, e de certa forma sobrevivi, e você, cuja presença física me foi tão cruelmente negada, ainda está tão vivo em minha memória?

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Paraíso do Tuiuti 2018 | Clipe oficial #NãoSouEscravoDeNenhumSenhor

Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Informação ao crucificado

...percebo a vida religiosa em aspectos teatrais, rotineiros. Sinto-a naufragada sem remissão num rito estéril que, tirante a beleza, nada mais lembra que a nossa vã condição de homem. A alma, então, parece-me feita de carne. E gemo, pedindo um pouco mais de eternidade.
...Pe. Jorge, professor de literaturas antigas, pediu-me o discurso. Ouvira mal a leitura, do canto onde estava perdera palavras, queria fazer juízo mais detido. Entreguei-lhe o papelório. Pe. Jorge mudou de óculos, franziu a testa, enfiou-se na leitura das doze páginas datilografadas. A testa ficou enrugada até o final. Por dois ou três momentos esboçou um sorriso. Acabou a última folha, olhou no verso para ver se tinha mais, trocou novamente os óculos. E com uma porção de sentidos:
- É. Você anda lendo demais. Papini, Karl Adam, Daniel Rops, Carrel e outros. É preciso agora pensar um pouco sobre tudo o que já leu. Não seja tão apressado. O mundo não está à espera de sua opinião. Guarde-a consigo mesmo até se sentir original. E quando se sentir original, seja então mais original, guarde mais ainda o que sabe.
Eduardo fazia ar de triunfo. Eu fiz ar cristão:
- Muito obrigado!

(Cony, trechos)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Como assim, escola sem ideologia?

por Marcelo Rubens Paiva

O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo.
Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as grandes guerras, a guerra fria, o liberalismo econômico, sem uma visão de esquerda?
A minha do colegial era a Zilda, inesquecível, que dava textos de Marx Webber, do mundo segmentado do trabalho. Ela era sarcástica com a disparidade econômica e a concentração de renda do Brasil. Das quais nossas famílias, da elite paulistana, eram produtoras.
Em seguida, veio o professor Beno (Benauro). Foi preso e torturado pelo DOI-Codi, na leva de repressão ao PCB de 1975, que matou Herzog e Manoel Fiel Filho. Benauro era do Partidão, como nosso professor Faro (José Salvador), também preso no colégio. Eu tinha 16 anos quando os vimos pelas janelas da escola, escoltados por agentes.
Outro professor, Luiz Roncari, de português, também fora preso. Não sei se era do PCB. Tinha um tique nos olhos. O chamávamos de Luiz Pisca-Pisca. Diziam que era sequela da tortura. Acho que era apenas um tique nervoso. Dava aulas sentado em cima da mesa. Um ato revolucionário.
Era muito bom ter professores ativistas e revolucionários me educando. Era libertador.
Não tem como fugir. O professor legal é o de esquerda, como o de biologia precisa ser divertido, darwinista e doidão, para manter sua turma ligada e ajudar a traçar um organograma genético da nossa família. A base do seu pensamento tem de ser a teoria da evolução. Ou vai dizer que Adão e Eva nos fizeram?
O de química precisa encontrar referências nos elementos que temos em casa, provar que nossa cozinha é a extensão do seu laboratório, sugerir fazer dos temperos, experiências.
O professor de física precisa explicar Newton e Einstein, o chuveiro elétrico e a teoria da relatividade e gravitacional, calcular nossas viagens de carro, trem e foguete, mostrar a insignificância humana diante do colossal universo, mostrar imagens do Hubble, buracos negros, supernovas, a relação energia e massa, o tempo curvo.
Nosso professor de física tem que ser fã de Jornada nas Estrelas. Precisa indicar como autores obrigatório Arthur Clarke, Philip Dick, George Orwell. E dar os primeiros axiomas da mecânica quântica.
O professor de filosofia precisa ensinar Platão, Sócrates e Aristóteles, ao estilo socrático, caminhando até o pátio, instalando-se debaixo de uma árvore, sem deixar de passar pela poesia de Heráclito, a teoria de tudo de Parmênides, a dialética de Zenão. Pula para Hegel e Kant, atravessa o niilismo de Nietzsche e chega na vida sem sentido dos existencialistas. Deixa Marx e Engels para o professor de história barbudo, de sandália, desleixado e apaixonante.
O professor de português precisa ser um poeta delirante, louco, que declama em grego e latim, Rimbaud e Joyce, Shakespeare e Cummings, que procura transmitir a emoção das palavras, o jogo do inconsciente com a leitura, a busca pela razão de ser, os conflitos humanos, que fala de alegria e dor, de morte e prazer, de beleza e sombra, de invenção fingimento.
O de geografia precisa falar de rios, penínsulas, lagos, mares, oceanos, polos, degelo, picos, trópicos, aquecimento, Equador, florestas, chuvas, tornados, furacões, terremotos, vulcões, ilhas, continentes, mas também de terras indígenas, garimpo ilegal, posseiros, imigração, geopolítica, fronteiras desenhadas pelos colonialistas, diferenças entre xiitas e sunitas, mostrar rotas de transação de mercadorias e comerciais, guerra pelo ouro, pelo diamante, pelo petróleo, seca, fome, campos férteis, civilização.
A missão deles é criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar. Espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista.
O paradoxo do movimento Escola Sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.
Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?
A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.
Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.

O Estado de S. Paulo
16 Julho 2016


domingo, 7 de agosto de 2016

Impeachment é golpe?


Não, impeachment não é golpe, está previsto na Constituição. Não é preciso ser ministro do supremo para saber disso. Acontece que não se recebe a resposta certa fazendo a pergunta errada. A pergunta que se deve fazer, em nome de um mínimo de honestidade intelectual, é se impeachment sem crime de responsabilidade é golpe. Neste ponto, a resposta é sim. Tanto a direita quanto a esquerda devem concordar com estes dois pressupostos. Caso contrário, não pode haver uma discussão minimamente racional. Sendo assim, toda controvérsia deve se concentrar sobre se, no caso atual do Brasil, há um crime de responsabilidade ou não.
O principal argumento à direita é que houve maquiagem das contas públicas, violação da lei orçamentária. Por aí já se percebe que não se está tratando de algo como enriquecimento ilícito, e este é justamente o principal argumento à esquerda. Pois bem, é preciso deixar claro que ninguém pode ser acusado sem saber do que está sendo acusado, e por isso o processo de impeachment de Dilma Roussef se concentrou em torno das chamadas pedaladas fiscais, demora no repasse de valores a bancos públicos, e nos decretos de crédito suplementar. Este era o pressuposto jurídico sem o qual não se poderia passar para o julgamento político. Particularmente, estou convencido de que não há evidência alguma de crime de responsabilidade. Como diria Belchior: "tenho ouvido muitos discos (leia-se vídeos), conversado com pessoas", e não é difícil para mim chegar à conclusão de ausência de crime. Isto porque há vários níveis pelos quais a discussão passa e, mesmo que se conceda razão aos que são a favor do impeachment em um primeiro ou segundo nível, há um nível em que isto é, na minha opinião, impossível.
Poderíamos arbitrariamente estipular vários níveis para esta discussão, de modo a dar conta de desfazer os mais diversos mitos criados por uma dupla infalível: parcialidade de quem informa, fanatismo de quem é informado. No entanto, por didatismo, podemos fazer um recorte em três níveis:
1º. Não há enriquecimento ilícito da presidente Dilma. Isto é curioso porque muito se fala da Lava-a-jato. A julgar por dois detalhes importantíssimos que lamentavelmente demonstram parcialidade do judiciário (a condução coercitiva de Lula e o vazamento de áudios ilegais para insuflar ódio irracional na população), era de se esperar que se chegasse a Dilma, via PT, a fim de fazer o recorte jurídico que serviria de pressuposto ao julgamento político do impeachment. Como isto não foi possível, fez-se um recorte em torno das pedaladas e dos decretos.
2º. Não houve pedaladas nem decretos sem autorização do congresso. Não houve pedaladas porque não houve operação de crédito com os bancos públicos, e os créditos suplementares, que estavam condicionados ao cumprimento de uma meta orçamentária por parte do governo, foram decretados de acordo com esta meta. Não houve descumprimento da meta e, por isso, os decretos não foram ilegais. O curioso deste ponto é que o governo esteve à beira de cometer este erro de que está sendo acusado agora. Ao perceber que não cumpriria a tal meta, enviou proposta de mudança da mesma ao congresso que... aprovou a meta. O mesmo congresso que depois, com um exemplo emblemático do que significa a palavra 'cinismo', fez um julgamento político (leia-se sem fundamento jurídico) de que não houve cumprimento da meta.
3º. Neste nível, entramos em um raciocínio contrafactual. É aquele ponto em que a discussão já está praticamente terminada. Você defende A e seu interlocutor defende B e, embora haja mais evidências em favor de A, você concede a hipótese: e se B for o caso...? Pois bem, muito embora a cultura brasileira faça um movimento pendular entre o messianismo e a iconoclastia, privilegiando muitas vezes um único indivíduo em detrimento do grupo e do contexto em que está inserido, é certo que a presidente da República não governa sozinha: para isso há órgãos técnicos, os quais levam a cabo muitas decisões, corretas ou não. O fato é que decisões que partem destes órgãos técnicos eximem a presidente de dolo. O dolo é diferente da culpa, esta advém de negligência, imperícia ou imprudência. Muito se tem acusado a presidente afastada destas três coisas, talvez não sem razão, porém isto não caracteriza o dolo, que é a intenção de cometer um malfeito.
É certo que estes pontos não esgotam a discussão. Em todos os níveis, há espaço para o contraditório. Há quem traga à baila a época em que Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, há quem diga que a meta orçamentária não é anual e sim bimestral ou que o rol de crimes de responsabilidade não é exaustivo e sim exemplificativo, e há quem identifique o dolo na intenção de vencer as eleições. No entanto, raramente as discussões chegam até este ponto; há algumas que não chegam nem ao primeiro nível, mas apoiam-se em coisas como inflação e desemprego (!). Podemos chamar estes casos de nível zero da discussão, quando nosso interlocutor dá de ombros e afirma: pois que seja golpe! Neste ponto, voltamos a 1964, e percebemos que a cultura democrática brasileira ainda tem muito o que aprender.
Desnecessário dizer que a mídia apoiou as manifestações pró-impeachment, e não deixou a menor dúvida de sua parcialidade quando abafou a delação de Sérgio Machado, em que Romero Jucá fala explicitamente da intenção de colocar "o Michel" no poder. Lembro que aguardei ansioso para assistir ao Jornal da Globo e ver o que William Waack afirmaria em seu editorial e... nenhuma menção ao Michel. (Aliás, parece que a principal notícia aquele dia na GloboNews era a Venezuela). Para concluir, e lembrando a frase de Brecht de que o pior analfabeto é o analfabeto político, não duvido de que, numa enquete destinada a perguntar se o caso de Dilma se assemelha mais ao de Collor ou ao de João Goulart, boa parte das respostas seriam: "quem é João Goulart?".

sábado, 30 de abril de 2016

Olívia (por Luis Fernando Verissimo)

Querida Olivia Schmid, muito obrigado pela carta que você me mandou no hospital Pró-Cardíaco, quando soube que eu estava internado lá, na semana passada. Sua carta me emocionou, bem como as muitas mensagens que recebi de amigos e de desconhecidos como você, desejando meu restabelecimento.
O restabelecimento era garantido, pois eu estava nas mãos dos médicos Claudio Domenico, Marcos Fernandes, Aline Vargas, Felipe Campos e toda a retaguarda de craques do hospital, além do dr. Alberto Rosa e do dr. Eduardo Saad, que instalou no meu peito o marca-passo que, se entendi bem, vai me permitir competir nas próximas Olimpíadas.
Mas, infelizmente, não pude responder sua cartinha, porque você não colocou seu endereço. Só sei que você se chama Olivia (lindo nome), tem 10 anos, mora na Tijuca e cursa o quinto ano da Escola Municipal Friedenreich. E que gosta muito de ler.
Você me fez uma encomenda: pediu que eu escrevesse uma história sobre pessoas que não gostam de acordar cedo de manhã, como você. Vou escrever a história, Olivia, inclusive porque pertenço à mesma irmandade.
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Concordo que não existe maldade maior do que tirar a gente do quentinho da cama com o pretexto absurdo de que é preciso ir à escola, trabalhar etc., todas essas coisas que não se comparam com o prazer de ficar na cama só mais um pouquinho.
Acho até que poderíamos formar uma associação de pessoas que pensam como nós, uma Associação dos que Odeiam Sair da Cama de Manhã (AOSCM). Poderíamos até fazer reuniões do nosso grupo — desde que não fossem muito cedo de manhã, claro.
Você me fez um pedido e eu vou fazer um a você, Olivia. Por favor, continue sendo o que você é. Não, não quero dizer leitora dos meus livros, se bem que isto também. Continue sendo uma pessoa que consegue emocionar outra pessoa com um simples ato de bondade, sem qualquer outro pretexto a não ser sua vontade de ser solidária.
Você deve ter notado que o pessoal anda muito mal-humorado, Olivia. Se desentendem e brigam porque um não tolera a opinião do outro. Conversa vira bate-boca, debate vira, às vezes, até troca de tapas.
Uma das crises em que o Brasil está metido é uma crise de civilidade. Não deixe que nada disso mude a sua maneira de ser, Olivia. O seu simples ato de bondade vale mais do que qualquer um desses discursos rancorosos. Animou meu coração mais do que um marca-passo.
O Brasil precisa muito de você, Olivia.

Luis Fernando Verissimo, na Gazeta do Povo do fim de semana de 9 e 10 de abril de 2016.